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Quero um romance

QUERO UM ROMANCE

Quero um romance, mas que seja especial

Não qualquer romancezinho água com açúcar

Quero um romance com minha existência

Daquele tipo que me tire de órbita

Mas me traga de volta, não me deixe num universo paralelo qualquer

Quero um romance com minha existência

Daqueles que não me aprisionem

Ao contrário, que abram minhas próprias algemas

Que me instiguem a não me acovardar atrás de trincheiras

Que me encorajem a enfrentar a vida em campo aberto

Quero um romance com minha existência

Daqueles que aceitem meus gritos e medos

Interpretem meus silêncios, aceitem minhas limitações

Me incentivem a usar minhas próprias asas

A voar para novos ares com segurança

Quero um romance com minha existência

Daqueles que me façam ser melhor sempre

Que me apontem pontos positivos e falhas

Sem contudo minar minha autoestima

Quero um romance com minha existência

Daqueles que me levem a mergulhar em rios gelados

Que me convidem ao cinema, a um parque, à Lua

Mas que, sobretudo, produzam comigo o enredo do meu próprio filme…

Quero um romance com minha existência

Quero um romance comigo mesma…

Alda M S Santos

Verde-vivo

VERDE-VIVO

A chuva fora torrencial, derrubara árvores, ninhos e sonhos

Pássaros saíam a cantar, comemorando o que restou de bom

Humanos se fechavam a reclamar, contabilizando o que perderam

A chuva ainda insistia, agora leve, fininha

Mas o sol se infiltrava, sem pedir licença, soberano, dono da vida

Renovando calor e colorindo de verde-vivo a esperança

Como alguém que tenta sorrir banhado em lágrimas

Formando um arco-íris maravilhoso escorrendo no rosto

Como a árvore que brota sob o corte do machado

É a vida mostrando sua força, suas faces e fases

É a natureza vital se impondo…

Se não fomos o “machado” que destruiu a vida

Que derrubou florestas inteiras ou jardins

Ou até mesmo uma flor

Sempre mais fácil seguir

Se fomos, vamos reconstruir…

A vida sempre se impõe!

Alda M S Santos

Parque de diversões

PARQUE DE DIVERSÕES

Há brinquedos para todos nesse grande parque de diversões

Afoitos, aventureiros, intensos, pura adrenalina

Cautelosos, ponderados, tranquilos, medrosos

Crianças, jovens, adultos e idosos

Há inclusive espaço para quem não quer brincar

Para quem se diverte vendo a roda gigante subir e girar

Ouvindo os gritos de quem se aventura na montanha-russa

Observando o leve e sem graça vai e vem do carrossel

Atento às gargalhadas do palácio do riso

Ou aos semblantes assustados de quem sai da casa de terror

Há lugar para quem se assenta no banco no jardim

E observa os casais enamorados com rosas e bichos de pelúcia

As crianças agitadas com algodão-doce colorido e bolas enormes de sorvetes

Há lugar para todos: individuais ou coletivos

Há também quem queira tomar a vez do outro

Burlar a ordem, a lei, bagunçar a diversão

Ainda que não haja desejo de brincar

Esse parque de diversões chamado vida não para

Com ou sem a gente

Ele continua sempre….

Alda M S Santos

Sozinhos

SOZINHOS

Medo inexplicável e insondável todos temos da solidão

Já que em momentos cruciais do existir estamos sós

Viemos para esse mundo, abrimos os olhos, vemos a luz, choramos …

Por mais gente que esteja ao nosso redor nesse momento

Chegamos sós…

E passamos a vida em busca de companhia, de afinidades

De um modo de afastar a solidão…

Será que temos a consciência que o momento da solidão voltará

Que será difícil, doloroso?

E que ter alguém ao longo do caminho poderia amenizar isso?

Na hora de partir, de voltar para o lugar de onde viemos

No momento em que fecharemos os olhos para esse mundo

Teremos apenas a solidão de companheira, iremos sós

Voltaremos também sozinhos

Para um lugar que mesmo imaginado, até sonhado

É, ainda assim, desconhecido…

Quanto mais amigos ficarmos dessa companheira, a solidão

Menos sozinhos estaremos…

Ser amigo da solidão, é não perder-se de si mesmo…

Alda M S Santos

Hora de partir…

HORA DE PARTIR…

Era chegada a hora de partir

Para onde não sabia

Apenas sentia, ouvia o chamado

Um chamado incessante de um novo lugar

Desconhecia o caminho, o destino

Sabia apenas que precisava ir…

Sequer tinha conhecimento se teria companhia

Mas era chegado o momento

Despiu-se do passado, foi nua

As novas vestes viriam com o tempo

As únicas vestimentas que levaria consigo

Seriam aquelas que acalentaram, aqueceram a alma

Tornando-a sensível e forte

Ou aquelas que iriam clarear e perfumar sua nova trilha

Jogou para trás as velhas sandálias

E seguiu nua, calçada de coragem

Em busca de novo destino…

Alda M S Santos

Defeitos

DEFEITOS

Aqueles dias que só conseguimos enxergar nossos defeitos

Sequer temos vontade de sair do quarto

Cabelos rebeldes, rugas, dores aqui e ali

Olhos úmidos, ausência de brilho no sorriso

O espelho diz verdades desagradáveis…

Uma avaliação mais profunda mostra sensações ruins

Tristeza com ingratidões, ciúmes, mágoas, desesperança

Saudades de tempos idos, de tempos não vindos

Melhor voltar para a cama e cobrir-se toda

Na expectativa de esconder o que dói

Dormir, talvez sonhar com um “amanhecer” melhor

Buscar lá dentro, bem lá no fundo

O equilíbrio da balança entre qualidades e defeitos

Aquela coragem que sempre faz tudo seguir, sempre em frente

A autoestima necessária para nos tornar melhor para os outros

Mas, especialmente, para nos fazer melhor para nós mesmos

Uma atitude de bondade e compaixão deve começar pelo mais próximo:

Nós mesmos!

Alda M S Santos

Abra as janelas

ABRA AS JANELAS

As portas estão passadas a chave

Janelas cerradas, persianas baixadas

Espaços interiores fechados, escuros, protegidos

Não deixam a vida entrar, acontecer

Abra as persianas devagar…

Deixe a luz de fora entrar aos poucos

Para não cegar com a claridade do exterior

Olhe lá fora através da vidraça

As cores, o brilho, a intensidade

Encante-se!

Abra as vidraças aos poucos…

Deixe a brisa balançar seus cabelos

O sol aquecer sua pele, arrepiar-se

Respire fundo o ar puro de rosas

Se vier uma tosse não faz mal

Desintoxique-se!

Abra bem as janelas da sua alma

Deixe sair o ar viciado que já não se renova

Deixe a vida renascer!

Depois das janelas abertas

Logo as portas também se destrancarão e se abrirão

Apenas vigie o que entra e o que sai

Portas são para isso mesmo…

Abra as janelas e as portas do seu coração

Areje a alma, a mente

Proteja o que é valioso de intrusos, expulse-os

Convide a luz do céu existente em cada ser para entrar

Sentar e fazer de seu interior sua mais nova morada

Abra as janelas, sente-se, escreva sua história…

Alda M S Santos

Humanos aranhas

HUMANOS ARANHAS

Somos humanos aranhas a tecer

Alguns tecendo teias fortes como o aço

Outros teias frágeis, mas impregnantes

Há os que tecem, sem objetivos de captura, apenas proteção

E ainda aqueles que sequer são capazes de construir teias

Esses, especialistas em se tornar presas de outras aranhas

Grudados em outras teias…

Há também as “aranhas” que buscam presas em outras teias

Já capturados por outras aranhas

Estamos, de todo modo, presos em alguma teia

De seda ou de aço, não importa

Cuidando da que construímos e de quem “capturamos”

Ou nos adaptando à teia em que fomos capturados

A liberdade consiste em escolher a “prisão”

A teia na qual estaremos nos fazendo de livres…

Alda M S Santos

Nos lugares errados

NOS LUGARES ERRADOS

Muitas vezes encontramos entre os loucos mais saúde mental e alegria

Que entre os tidos como normais, sem qualquer anomalia

Muitas vezes notamos mais carinho num abraço entre amigos saudosos

Que entre irmãos de sangue e familiares, tantas vezes maldosos

Muitas vezes há mais amor e cuidado na distância

Que entre aqueles que caminham lado a lado sem se dar importância

Muitas vezes há mais vida num leito hospitalar

Que entre aqueles que a desperdiçam entre brigas e lamúrias no lar

Muitas vezes há mais sinceridade num sorriso doloroso que acolhe

Que numa lágrima que se pretende solidária, mas se recolhe

Muitas vezes nota-se mais a presença de Deus entre pagãos e ateus a trabalhar

Que entre religiosos de joelhos diante de um altar

Muitas vezes há mais paz num grito de liberdade para o mundo

Que num silêncio que fere a alma, corta fundo

As coisas estão mesmo nos lugares errados

Ou somos nós que não sabemos procurar?

Alda M S Santos

O que você é hoje?

O QUE VOCÊ É HOJE?

Quantos anos você tem hoje?

Trinta, quarenta, cinquenta, setenta?

Volte lá atrás, à metade disso…

A sua vida de hoje corresponde àquela que propôs para si?

O que você realizou é o que sonhou décadas atrás?

Vida pessoal, profissional, familiar, social?

Tem a família, os amigos, o trabalho, a saúde, o lar que sonhou?

Colocando na balança as oportunidades que teve

E aquelas que deixou passar, não soube aproveitar

As vezes em que tiraram seu chão

Ou aquelas que não soube flutuar

Qual o saldo? Está inteiro? Faltam partes, mantém a essência?

Qual sua responsabilidade nisso tudo?

Qual sua perspectiva para o futuro?

O que você é hoje pode ser diferente do que imaginou para si

Pode até ser meio frustrante para o jovem sonhador que foi

Mas no equilíbrio entre sonhos e realidade

O saldo certamente é bom

E, se não for, a boa notícia é que a vida continua

Dá para tentar fazer diferente de agora em diante

Boa caminhada para todos nós!

Alda M S Santos

Dá para explicar?

DÁ PARA EXPLICAR?

“Você conseguiria explicar isso para seus pais, para seus filhos

Sem pestanejar, sem titubear, sem subterfúgios

Com leveza, certeza, tranquilidade?

Essa é a pergunta que me faço antes de tomar qualquer decisão

Seja na vida profissional, pessoal, social ou religiosa”

Ouvi isso certa vez e achei muito sensato!

Se qualquer atitude tomada for envergonhar

Não der para explicar de modo claro, sem mentiras

Para aqueles que mais amamos e nos importamos

Para quem nos admira e se importa conosco

É sinal que não é uma boa opção

Se não dá para explicar sem medos ou receios de rejeições

As construções, escolhas, desconstruções e consequências

É uma atitude que não deve ser tomada

Certamente irá machucar alguém e ferir a própria consciência…

Certa vez ouvi uma pessoa amiga dizer

“Não queria isso, como vou explicar para meus filhos”?

Isso pode não ser tão fácil sempre

Mas é uma maneira sábia de lidar com indecisões

Com erros e acertos, com tropeços e quedas

Com as ventanias da vida…

Alda M S Santos

Caçadores de belezas

CAÇADORES DE BELEZAS

Caçadores de belezas têm passos leves

Flutuam por aí como borboletas azuis

E sugam suavemente o néctar escondido

Deixando ali um pólen fecundo gerador de nova vida

Caçadores de belezas têm olhar profundo

Que segredam o que as palavras são incapazes de dizer

Seu brilho ilumina e atrai como raios de sol

E aquecem corações frios e carentes de calor

Caçadores de belezas têm alma pura

Que se reflete nas atitudes de delicadeza e doçura

Daquelas capazes de com um toque ou olhar afastar a amargura

Caçadores de belezas não usam armas

Não esperam por momentos lindos para capturar

Caçadores de belezas tornam belo aquilo que seu olhar tocar…

Caçadores de belezas são amantes da vida…

Alda M S Santos

Há quem se divirta…

HÁ QUEM SE DIVIRTA…

Há quem se divirta de todos os modos

Há quem se divirta dançando, cantando, acompanhado

Há quem se divirta numa dança solo

Há quem se divirta dançando em grupos

Há quem se divirta vendo os outros dançarem, conversando

Há quem se divirta instigando os outros a dançarem

Há quem se divirta por estar num meio musical

Há quem se divirta escolhendo ritmos ou dançando todos eles

Há quem se divirta com o prazer das companhias, amigos

Há quem se divirta com os comes e bebes

Há quem se divirta fazendo troça e piada com todos

Há quem se divirta independente das próprias limitações

Há quem se divirta proporcionando diversão ao outro

Há quem se divirta apenas por ver quem ama se divertir

Há quem se divirta por tudo isso ou por nada disso

Mas há quem se divirta por estar vivo, ter saúde, amigos

Há quem se divirta por poder agradecer as bênçãos recebidas

Ainda que nem sempre os “bailes” que a vida nos dá

Sejam tão divertidos…

Vamos nos divertir enquanto pudermos…

Alda M S Santos

De frente para a vida

DE FRENTE PARA A VIDA

De frente, braços abertos, receptivos

A vida nos manda de volta aquilo que a ela enviamos

Sorriso que envia fagulhas de esperança e alegrias

Atitudes que emitem amor em cada gesto

Palavras que são néctar a ouvidos sensíveis

E são ímãs de carinho e confiança a atrair levezas

De frente para a a vida, se emitirmos luz

Receberemos reflexos de calor e energia

Mas, se emitirmos negatividade

Receberemos decepções e mágoas…

Isso é lei do retorno, efeito bumerangue

Ele vai, ele volta…

De frente para vida…quero estar sempre…

Abram os braços!

Alda M S Santos

Nunca desistir de mim

NUNCA DESISTIR DE MIM

Seguir em frente, lutar sempre

Essa é minha promessa

Nem sempre fácil de manter

Curtir um dia de raios de sol que me aquecem

Mas também aceitar quando meu sol se esconder

Amar sob um céu estrelado e inspirador ou sobre nuvens de algodão

Mas aproveitar quando a Lua não aparecer e tudo for escuridão

Dançar na chuva entre abraços apertados e beijos molhados, aquecida

Mas saber suportar as fagulhas ameaçadoras das tempestades de gelo, sofrida

Enquanto nova alvorada não surge em mim, renascida

Retribuir o amor e carinho daqueles que me cercam e apoiam

Mas aceitar e respeitar o direito daqueles que não me querem por perto, não me amam

Sobretudo, amar a mim mesma, sempre

Ainda ou principalmente quando outros me abandonarem

Mesmo em minhas fragilidades, medos e carências

Ainda que erre, caia e não consiga levantar tão facilmente

Ou que nem sempre seja minha maior fã

E queira ficar escondida debaixo das cobertas…

Pois a promessa fundamental é, independente do que acontecer,

Cuidar do meu coração

E nunca desistir de mim mesma!

Alda M S Santos

Passado, presente, futuro…

PASSADO, PRESENTE, FUTURO…

Se quero saber algo do futuro, olho um pouco para trás

Se quero, saudosamente, lembrar o passado, olho para frente

Assim mesmo! Paradoxal!

Ver-se nos filhos, nos pais

Saudades, expectativas…

Meus filhos me mostram meu ontem, minha infância e juventude

Meus pais me possibilitam visualizar meu futuro

Uma idade que não sei se virá

Se quero que chegue, se terei coragem de vivê-la

Tento me concentrar no hoje, agir nele

Aproveitando o que o ontem me forneceu

E a expectativa e incerteza do que o amanhã me possibilita

Eu também fui o ontem e sou o amanhã de alguém

Quero apenas um hoje bom, para que a lembrança seja boa

Para mim, para os que comigo conviverem…

Alda M S Santos

Medos

MEDOS

Muitos e muitos medos me seguem

Medo de perder pessoas queridas

Medo de me perder das pessoas amadas

Medo de perder a saúde, a lucidez

Medo de não mais ser capaz de me compadecer pela dor do outro

Medo de perder minhas memórias e lembranças boas

Medo de me decepcionar com amigos e amores

Medo de esquecer ou ser esquecida por quem amo

Muitos medos…

Não é por ausência de fé em Deus

Nem por fraqueza ou fragilidade excessiva

Tampouco por falta de coragem de enfrentá-los

De todas as coisas que me dão medo

Que me causam insegurança e dor

Um aprendizado sempre fica:

O amor é o único medo cuja dor sei que vale o risco…

Alda M S Santos

Fazer o bem, viver o bem

FAZER O BEM, VIVER O BEM

“Uma pessoa do bem, que ajuda a tantos não merece passar por isso”

Fala contínua pós-tragédias, particularmente quando atingem indivíduos “do bem”

Fazer o bem não livra ninguém de ser atingido pelo mal

É um modo caridoso de ser e de viver

Uma maneira de ser generoso consigo mesmo através dos outros

Uma vida tentando ser fiel a seus princípios

Que, infelizmente, não imuniza contra as maldades existentes por aí

Mas torna seus autores mais fortes e resistentes para enfrentá-las

Num mundo de cabeça para baixo

Ser bondoso, ético e correto, o que deveria ser visto como natural

É encarado com incredulidade.

Espanto com o mal deveria ser geral, independente de quem atinja…

Cercarmo-nos do bem, fazer o bem

Tornar mais equilibrada a luta do bem contra o mal

É na verdade uma maneira de tentar neutralizar o negativo existente por aí

Que sabemos que tem sempre muitos adeptos

Infelizmente…

Alda M S Santos

Que procuras?

QUE PROCURAS?

Um mundo feito de muitas procuras

Muitas vidas feitas de poucos achados

-O que procuras, que buscas?

– Ainda não sei, mas hei de encontrar!

-Se não sabes nem o que buscas

Como queres encontrar?

-Quando encontrar saberei o que preciso

Será sintonia instantânea e atração imediata.

Essa crença que move boa parte da humanidade

É que mantém a roda da vida girando

Que procuras?

Podemos não saber, mas enquanto sentirmos a falta

Estaremos sempre em busca, sem estacionar

Ainda que pensemos ter desistido

O desejo de encontrar o que buscamos

Estará tal qual fumacinha lá no fundo

Bastará um sopro, um toque

Para tudo se acender e voltar ao fogo que atiça a vida…

Que procuras?

Um mundo feito de muitas procuras

Mas muitas vidas feitas de achados na mesma proporção

E a roda segue seu curso infinito…

Que procuras?

Alda M S Santos

Confiança, ingenuidade ou pureza?

CONFIANÇA, INGENUIDADE OU PUREZA?

Tão confiante que se aproxima daquele que o alimenta

Ingênuo o bastante para lamber a mão que se estende

Puro o suficiente para não perceber

Que aquele que o alimenta e cuida

Tem outros interesses que ele desconhece

Ambos apenas buscam suas necessidades básicas de sobrevivência

Uma certa empatia, olhar doce, focinho gelado

A mão que o alimenta, outro dia virá para lhe tirar a vida

Para alimentar outras vidas…

Sou meio covarde!

Até como a carne, mas desde que outro tire a vida

Que não precise encarar esse olhar todos os dias

Que não crie laços de afinidade

Não tenho coragem de tirar a vida!

Como se a carne que viesse do açougue

Não representasse uma vida como aquela

Que me olha terna ali…

É estranho pensar que uma vida precise se perder

Para outra poder permanecer…

Quem determina qual vida é mais valiosa?

Será mesmo necessário?

Humanos precisam mesmo disso?

Por que ao olhar dentro desse olhar

Tudo isso parece tão (des)humano?

Alda M S Santos

Fios da meada

FIOS DA MEADA

Na grande meada colorida da vida

Muitos fios são puxados

Na tentativa de fazer laços

Enlaces, entrelaces

Buscando desfazer nós…

Sem contudo ficar a sós

Principalmente sem ficar a sós

Puxa um fio verde daqui

Estica um fio vermelho dali

Por dentro, por fora, por cima, por baixo, vai e volta

Faz um zigue-zague, corta alguns nós

Seguindo os mesmos pontos

Desembaraçando…

E encontrando um ponto comum

De preferência bonito, harmônico

Com cores vibrantes e fortes, que nos aqueçam o viver

Formando um laço de amor…

Alda M S Santos

Vamos brindar?

VAMOS BRINDAR?

Vamos brindar aos sins que recebemos na vida

Aqueles que nos abriram portas, iluminaram nossos caminhos

Elevaram nossa autoestima, nossa fé em nós mesmos

Facilitaram nossas conquistas e nos permitiram alegrias…

Vamos brindar?

Vamos brindar também aos nãos que nos foram ofertados

Aqueles que nem sempre entendemos no momento

Tristes, amargos, cortantes, frustrantes, maldosos

Que interromperam nossa caminhada, esburacaram nosso trajeto, nos deixaram ali por uns tempos

Que tantas vezes nos revoltaram, contra os quais nos rebelamos e batemos de frente

Mas que, mesmo dolorosos, nos fizeram crescer…

Vamos brindar?

Mais que os sins, os sobreviventes dos nãos são mais fortes

Não são derrubados por qualquer ventania ou tempestade

As perdas e as quedas são, cedo ou tarde, impulsos para se levantarem

Sabem o momento de lutar e o momento de recuar

Ou, simplesmente, quando é necessário aguardar ou quando não dá para fazer nada…

Sobreviventes dos nãos aprenderam a extrair deles o que é útil e passível de evolução

E seguir tentando ignorar o que não faz bem…

Aos sins e aos nãos da vida que sempre existiram e sempre existirão

Vamos brindar?

Tim, tim!

Alda M S Santos

De gota em gota

DE GOTA EM GOTA

De gota em gota ela cai lá fora

A terra sedenta a recebe de boca aberta

Suavemente é engolida, absorvida por sementes e mudas

Os brotos crescem a olhos vistos

A piscina já não se importa

Ali, desnecessária, “completa”

Está cheia, transborda, não tem carências …

O que é excesso para uns

Quase sempre é falta para outros

De gota em gota se mata uma sede

Mas uma tempestade também pode matar…

De gota em gota a chuvinha cai lá fora

Alimenta sonhos, desejos e esperanças

De gota em gota…

Alda M S Santos

A festa continua: baila comigo?

A FESTA CONTINUA: BAILA COMIGO?

Não importa se estamos na pista

Independe se temos par ou se dançamos sozinhos

Tanto faz se estamos sentados num canto do salão

Esperando por alguém para nos estender a mão convidando para dançar

Ou se convidamos alguém com o olhar

Se cantamos a música, bailamos conforme o ritmo

Ou se soltamos o corpo à vontade para se movimentar

Não interessa a ninguém se é nosso embalo preferido

Ou se preferíamos escolher outra melodia

Importa mesmo é participar da festa

Mesmo porque ela segue

A gente estando ali ou levantando para ir embora

Baila comigo?

Alda M S Santos

Somos fortes

SOMOS FORTES

Quando a gente ouve ou diz “você é forte, vai superar, isso vai passar”

Não quer dizer pouco caso com a dor ou sofrimento do outro

Quer dizer, quase sempre, “sei como é isso, uma hora há de passar”

Ainda que quem diz não tenha superado nada

Apenas tem tentado seguir a vida

Aprendendo a cada passo do caminhar, sozinho ou não

Que não é fingindo que a dor não existe

Ou engolindo o choro, tampouco se escondendo do mundo

Que tudo irá se encaixar…

Enfrentar o que fere e sangra dentro de si

Fazendo curativos de fé, usando compressas de amor

Tendo esperanças em dias mais amenos, apagando pesadelos, ativando sonhos bons

Evitando culpas, recriminações e autopiedade excessivas, confiando em si mesmo…

Isso fará o sol voltar a brilhar um dia

Isso é ser forte!

Essa capacidade de resistir todos temos

Chama-se sobrevivência e é forte em todo ser vivo

Apenas oscila e tem botões acionadores diferentes…

Somos fortes! 😇🙏

Alda M S Santos

Tão difícil

TÃO DIFÍCIL

Tão difícil quanto segurar espirro ou tosse

Tão difícil quanto conter as crises de riso em situações sérias

Tão difícil quanto mexer com água com vontade de fazer xixi

Tão difícil quanto não dormir deitado diante da TV

Tão difícil quanto manter-se aprumado na ventania

Tão difícil quanto parar qualquer avalanche iniciada

É segurar lágrimas de tristeza, emoção, raiva, mágoa ou decepção

Aquelas que não se quer verter…

Tenta-se distrair a mente, focar noutra coisa, evitar autopiedade

Respirar fundo, contar até 100

E torcer para ninguém, mas ninguém mesmo, notar ou perguntar nada

Qualquer palavra ou olhar doce

Um carinho ou cuidado, qualquer atitude pode trincar a estrutura montada

Romper comportas e ativar uma torrencial tempestade de lágrimas contidas

E acabar por inundar tudo…

Tão difícil!

Alda M S Santos

Não quero!

NÃO QUERO!

Não quero amor por obrigação ou segurança sob tensão

Quero respeito por convicção, ainda que seja sonho vão

Não quero tranquilidade assegurada, atrelada à prisão

Quero paz condicionada à igualdade, ao direito de expressão

Não quero liberdade de alçar voo muito além

Se minhas asas impedirem o voo de alguém

Não quero uma fé retrógrada, ameaçadora, excludente e cega

Quero um Deus de amor, de igualdade e esperança que só agrega

Não quero viver feliz, protegida e segura

Se para isso o outro precisar morrer ou viver na amargura…

Alda M S Santos

Finou-se?

FINOU-SE?

Dia de Finados, dia dos mortos, dia dos vivos

Dia de todos nós que aceitamos nossas mortes diárias

Aquilo que em nós finou por inanição, por circularidade existencial, por ciclo vital

Somos feitos de nascimentos e mortes todo o tempo

Aprendendo a lidar com o que em nós definha, morre

O que em nós brota, nasce, cresce, se agiganta

Até mesmo o que em nós se transforma ou se recolhe

Para não tirar a luz daquilo que precisa crescer

Fruto que precisa secar, morrer

Para deixar a semente de um novo existir brotar

E manter oxigenado em nós o que precisa viver…

A “melhor morte” de todas é a que serve de adubo para aquilo que vai nascer

Não morre, se transforma e renasce em algo mais lindo e duradouro

Como o que temos em nós de mais maravilhoso

Capaz de permitir que nele nos eternizemos: O AMOR

Alda M S Santos

Qual a questão?

QUAL A QUESTÃO?

Não é uma questão de vencer a qualquer custo

É uma questão de saber quais “armas” são válidas

Não é uma questão de ter a quem culpar

É uma questão de assumir as próprias responsabilidades

Não é uma questão de vencer ou perder

É uma questão de ficar bem consigo mesmo numa ou noutra situação

Não é uma questão de quem vive ou quem morre

Por quem se vive ou por quem se morre

É uma questão de vida e morte para todos

É uma questão de porquê se vive e porquê se morre

Mas, principalmente, de como se vive ou como se morre

Pois não há quem vença sempre

Não há tampouco quem viva para sempre…

Em cada vitória trazemos uma derrota acoplada

Em cada derrota há sempre algo de positivo e vitorioso a considerar

É tudo uma questão de ir aprendendo a viver

Enquanto houver vida, amor, esperança e confiança…

Alda M S Santos

Carregando…

CARREGANDO…

Minutos que vão passando, a imagem carregando…

Uma barrinha em trinta, quarenta, sessenta por cento concluída

Exigindo calma, tolerância, tranquilidade

E a paciência enchendo mais rápido que a barra

Quando estiver com carregamento total é fim ou início?

Na perspectiva da vida carregamento total seria o fim?

Tudo que teria para viver já se foi em vinte, setenta, cem por cento?

Carregou, usou, gastou…

Ou carregamos tudo primeiro para começar a viver?

Estamos carregando para viver, ou vivendo até carregar?

Melhor seria saber qual a porcentagem concluída, ou simplesmente viver?

Existe algo que acelera, desacelera ou paralisa o processo?

Tristezas e decepções, lágrimas e dores a pré-enchem mais rápido?

Alegrias, prazeres, intensidade, amores desaceleram?

Como saber?

Se faltar energia vital, de todo modo, tudo termina antes de acabar, antes do final…

Carregando…

Alda M S Santos

Eu troco

EU TROCO

Troco uma noitada de músicas, danças e bebidas

Por um dia de caminhadas na praia tomando água de coco

Troco a tranquilidade de uma vida estendida na rede da varanda

Pela oportunidade de estender a mão, despertar sorrisos, ajudar

Troco os gritos calados de tristeza e desesperança

Pela chance de ouvir os silenciosos pedidos do olhar

Troco aquele rolê no shopping numa tarde de sábado

Por uma conversa amiga, tranquila, acolhedora debaixo da jabuticabeira

Troco aquela viagem por locais paradisíacos

Pelo prazer de viajar dentro daqueles que amo e que de mim precisam

Troco milhões de amigos e/ou expectadores

Por uma amizade sincera, que ore por mim, que seja confiável, que não me traia ou abandone

Troco a aquisição de qualquer bem material ou condição financeira

Pelo prazer de sentir um abraço sincero a dizer “você é bênção em nossas vidas”

Troco uma vida longa e cheia de “ganhos”

Por uma vida mais curta, na medida certa, de coração cheio

Troco qualquer coisa pelo prazer de ser eu mesma

Pela satisfação de viver para quem amo…

Eu troco!

Alda M S Santos

Dores e delícias do viver

DORES E DELÍCIAS DO VIVER

É dor ou delícia?

Dispor de um céu infinito para voar

E encontrar alimento num cativeiro alheio?

É dor ou delícia?

Ter asas leves e fortes capazes de alçar voo nos sonhos do coração

E precisar manter os pés firmes e pesados no chão?

É dor ou delícia?

Avistar um deslumbrante e convidativo horizonte além-mar a desbravar

E desejar um porto distante e inalcançável a um barquinho de papel?

É dor ou delícia?

Flutuar nas águas límpidas e leves do amor incondicional

E, afoito, se afogar nas águas turvas e densas da ilusão?

Viver é se molhar e se secar, tornar a se molhar e tornar a se secar

No brilho líquido e vibrante dos sorrisos e das lágrimas

Que nos tomam todo o tempo de delícias e dores….

É dor ou delícia?

Cada qual que responda por si…

Alda M S Santos

Vira-latas

VIRA-LATAS
Somos mestiços, oriundos de várias raças
Uma mistura que nos torna SRD
Sem raça definida, carregamos características de vários povos
Ora somos fortes, resistentes e adaptáveis 
Pés-duros, confiáveis, amigos
Ora somos frágeis e de baixa autoestima
Acusados de tudo fazer, de virar latas por um pedaço de pão
De nos rebaixarmos para receber um carinho na cabeça
Dependentes da aprovação daqueles que consideramos mais, superiores
Mas carregamos conosco as misturas de uma raça não definida, híbrida
E o que de bom ou ruim isso possa acarretar
Com toda a força, fidelidade, inteligência, confiabilidade e resistência
De quem tudo já enfrentou
E de quem não se entrega assim tão facilmente
Um vira-latas morre lutando, acreditando na vida
Nunca deixando de amar…
Alda M S Santos

Quando eu for embora

QUANDO EU FOR EMBORA

Quando eu for embora

Quem de mim sentirá falta?

Aqueles que caminharam comigo

Que tiveram de mim a companhia diária?

Quando eu for embora

Quem de mim sentirá falta?

Aqueles aos quais dei meu melhor, mesmo falha, mesmo nos erros?

Ficará neles a lembrança do meu sorriso, do meu cuidado, do meu amor?

Quando eu for embora

Quem de mim sentirá falta?

Aqueles para os quais trabalhei, ensinei, me dediquei?

Quando eu for embora

Quem de mim sentirá falta?

Aqueles que buscaram em mim a inspiração e energia para continuar?

Quando eu for embora

Quem de mim sentirá falta?

Aqueles que me amaram…

Mas quem me amou de verdade?

Quando eu for embora

Quem de mim sentirá falta?

Aqueles que de mim precisaram, que usufruíram do que pude proporcionar

Que amaram não a mim exatamente, mas o que lhes possibilitei

Esses encontrarão logo substituto quando eu for embora

Sentirão falta de alguém como eu, não de mim…

Nós somos quem amamos e quem nos amou de verdade

Quando formos embora levaremos grande parte deles conosco

Deixaremos muito de nós com eles…

Quando eu for embora

Quem de mim sentirá falta?

Alda M S Santos

Urgências

URGÊNCIAS

As faltas que nos enchem de vazios intensos

Vazios que nos enchem de necessidades

Necessidades que nos enchem de urgências

Urgências que nos derrubam, atropelam os outros

Às vezes nos paralisam, imobilizam

Mas quando bem aproveitadas

Também nos movem na direção do bem, da paz

E nos preenchem de amor

Tão repletos ficamos que chega a transbordar …

Alda M S Santos

Reflexos de luz

REFLEXOS DE LUZ

Dia encoberto, nebulosidade intensa

O sol não apareceu…dia “triste”

Rei, cedeu a vez para as nuvens chorosas

Não deixou de existir, não foi embora

Está lá, apenas se pôs atrás, ficou na retaguarda

Ainda assim, emite luz entre nuvens

Aquela que possibilita a sombra das árvores

A mesma que permite o reflexo nas águas…

Tantas vezes quando tudo em nós parece nebuloso e sem esperança

Quando só notamos sombras

Seria bom que lembrássemos que não se formam sombras

Onde a escuridão é total…

Nossa luz, como o sol, apenas está na retaguarda

Busquemos por ela, saibamos esperar

Admirando e aprendendo com os reflexos que se formam

Nas águas que minam de nossos olhos

E irrigam um novo desabrochar…

Alda M S Santos

Fecha os olhos e vê…

FECHA OS OLHOS E VÊ…

Os olhos estão abertos

O olhar é vago, olha ao longe

Tenta enxergar além do horizonte

Olha para um lado e para o outro

Vê, mas não enxerga

Busca por algo invisível aos olhos

O olhar busca por algo que só se vê com o coração

E os olhos do coração

Enxergam melhor quando fechados…

Saint Exupéry diz que “só se vê bem com o coração,

O essencial é invisível aos olhos”

Ela fecha os olhos e tudo vê…

Alda M S Santos

Desculpe

DESCULPE!

Eu lutei, me esforcei, enfrentei o que machucava, sem revoltas

Dei tudo de mim, entreguei o que tinha, pedi, perdi

Desculpe!

Não foi o bastante tudo que fiz

As dores que passei, os medos que vivi, eu tentei, perdi

Desculpe!

Amei vocês acima de tudo, briguei comigo mesma

Quis estar aqui, ser a Mulher Maravilha, perdi

Mas nem todos os laços que cultivei conseguiram me salvar

Desculpe!

Fui feliz, sorri, chorei, sofri, fiz vocês sofrerem

Acreditei que seria possível… perdi

Desculpe!

Por não ter aguentado, não ter conseguido ficar mais

Desculpe!

Por ter partido e deixado vocês para trás

Desculpe!

Mas uma promessa eu cumprirei

Amarei vocês para sempre!

Ainda nos encontraremos um dia e abraçarei vocês de novo

Desculpe! Adeus!

Ela teria dito, se pudesse, antes de partir…

Eu teria dito se fosse ela

E ela se foi…

Guerreira, amante e amada…

Alda M S Santos

Amor infinito

AMOR INFINITO

Do alto tudo parece mais claro, mais nítido

Que será que Ele vê daqui todo o tempo?

Riqueza e miséria, fartura e carência, falta e desperdício

Violência e delicadezas, amor e ódio

Um povo sofrido e lutador

Uma nação maltratada por alguns

A fé e coragem para prosseguir de muitos

Uma parte desanimada quase jogando a toalha

Aqueles que resistem e insistem no bem

Os que estão iludidos por alguém

Uma batalha sem fim para alcançar as alturas

Que Ele vê?

Daqui tento em minha pequenez

Enxergar com “Seu” olhar

E vejo Seus braços abertos em cruz

Na maravilha simbólica do Cristo Redentor

Vejo amor grandioso e esperança

Ele nos vê e nos ampara de toda parte

Reflito comigo na Sua bondade de pai

O que eu vi não é nem um milésimo do que Ele sente por nós…

Há esperança!

Que possamos sentir sua Luz, seu Amor, sua Proteção…

Alda M S Santos

A luz que me rodeia

A LUZ QUE ME RODEIA

Tento capturar a luz que me rodeia

Trazer esse brilho que irradia para mais perto

Iluminar recônditos secretos dentro de mim

Torná-los mais claros para minha aceitação e compreensão

E, mais iluminada, poder compreender melhor os demais seres

Quero usar esse facho de luz para ofuscar o que machuca

Esse calor para aquecer o que está frio, em espera

Para cauterizar o que ainda sangra

A luz que somos só é válida se o calor que traz consigo

For capaz de iluminar e aquecer a nós

E a todos no nosso entorno…

Luz e calor que recebemos, que propagamos, que partilhamos

É luz e calor que não se acaba…

Alda M S Santos

Sempre comigo

SEMPRE COMIGO

Vontade de te falar sobre todas as coisas que se passam comigo

Dividir contigo meus medos, minhas angústias

Saudade de te contar minhas vitórias, as boas caminhadas

Partilhar aqueles tropeções, machucados, feridas abertas

Sinto falta de ouvir seus conselhos calados

Ou que vêm pelas palavras ou ações dos outros

Quero contar como tenho vivido, o que tem acontecido comigo e com os meus

Sinto falta da sua presença!

Fecho os olhos, de joelhos, faço uma oração

Recordo-me que assim te trago para dentro de mim

E, novamente, te noto perto, sinto sua presença

E te conto tudo…

Lembro-me que a necessidade de contar é minha

Você já sabe tudo de mim, melhor do que eu, mas me ouve

Conhece tudo, tudo, minhas capacidades e limitações

Erros e acertos, e me ampara…

Apenas agradeço e faço um único pedido:

Meu Deus, esteja sempre comigo!

Alda M S Santos

Sinto-me parte

SINTO-ME PARTE

Sou parte desse universo tão infinito

Em meio à natureza pura e simples

Quando me sinto um tudo

Ou quando me assemelho a um nada

Sinto-me parte desse universo

Que parece muitas vezes tão aleatório

Noutras tao cuidadosamente planejado

Cada pedra, cada galho, cada mato seco

Cada inseto irritante que pica

Cada árvore centenária que balança ao sabor do vento

O riacho que se desfaz em cachoeiras nas rochas

Sinto-me parte…

Mesmo no silêncio ora tranquilizador, ora constrangedor

Que contrasta com meu barulho interior

Tudo parece tão bem encaixado ali

Todos representam tão bem seu papel

Ainda que meus barulhos sem nexo

Pareçam intrusos num roteiro de sons

Que demonstram total harmonia

Sinto- me parte…

Não sei se sou a parte aleatória ou a cuidadosamente planejada

Sei apenas que sinto-me parte…

Alda M S Santos

Para onde irão?

PARA ONDE IRÃO?
Roupas e calçados doados para caridade
Livros lidos e relidos, que estante ocuparão?
Aquelas fotos e CDs antigos, verdadeira raridade
Objetos de apego, perfume especial, animais de estimação
Para onde irão?
Crônicas e textos escritos, poemas e versos
Cartas e cartões, carinhos contidos, afeições declaradas
É a vida em seus direitos e avessos, versos e reversos
Rosas plantadas, flores regadas, ervas arrancadas
Para onde irão?
Versos de amor gravados na alma em doces melodias
Sorrisos e abraços que aqueceram e iluminaram nossos dias
Qualquer tentativa de lidar com a ausência, com a saudade, pura perda de tempo, embromação
Bom mesmo é ficar, mesmo depois de ir embora, permanecer pra sempre gerando emoção…
Todo o resto não importa para onde irá, especulação
Se o que importa de verdade estiver tatuado no coração…
Alda M S Santos

Violência, carregando…

VIOLÊNCIA, CARREGANDO….
De pouquinho em pouquinho é que tudo se agiganta
Uma greta aberta na porta permite pequenas entradas da leve e desejada brisa
Que logo se alarga e não controla o vendaval
Uma pequena fagulha num terreno seco
Logo se torna um incêndio de proporções incontroláveis e destruidoras
Um pequeno vazamento de água subterrâneo pode jogar casas inteiras ao chão
Pequenas permissões são aval para grandes intromissões
Uma vez esfregada a garrafa a rolha deixa escapar o gênio
Que pode não querer voltar para lá
Um grito, uma agressão verbal ou um “simples” desrespeito
Na vida pessoal, social, religiosa ou política
Que são aceitos, permitidos ou ignorados
São a fresta na porta, a fagulha do fogo, o vazamento subterrâneo em nossas vidas
O gênio da violência que escapa e não quererá voltar
Todo grande evento começa devagarzinho
De modo a ter impedido ou controlado seu crescimento e evolução…
Alda M S Santos

Choques

CHOQUES

Vivemos nos equilibrando entre virtudes e defeitos

Que trazemos dentro de nós, que são inerentes a todo ser humano

Tentando fazer valer o que nos faz bem sem machucar ninguém

Lutando para deixar prevalecer o que nos faz crescer sem decrescer ninguém

Qualidades e defeitos de dentro em confronto com as de fora

Acionadas pelos convívios que travamos todo o tempo

Uns atiçando mais nossos defeitos

Outros despertando mais nossas virtudes

Tentando não queimar ou sofrer com os curto-circuitos

E sobreviver aos choques entre nosso céu interno que quer brilhar

E o inferno externo que quer se impor e ganhar

E vice-versa…

Buscando um fio terra que estabilize esse circuito de vida e morte…

Alda M S Santos

Tarde demais?

TARDE DEMAIS?

Tarde demais para se tornar um esportista ou atleta profissional

Mas nunca é tarde demais para cuidar da saúde física e mental

Tarde demais para arrependimentos por atos que causaram algum mal

Mas nunca é tarde demais para aprender e fazer o bem a todos sem igual

Tarde demais para lamentar oportunidades perdidas

Mas nunca é tarde demais para caminhar por novas trilhas pretendidas

Tarde demais para voltar atrás e reescrever aquele capítulo favorito

Mas nunca é tarde demais para fazer do hoje um poema bonito

Cedo ou tarde? Quem poderá dizer?

Importante é viver e deixar viver…

Cedo ou tarde a vida se vai…

Alda M S Santos

O valor de uma vida

O VALOR DE UMA VIDA

Ânsia, necessidade premente de seguir

Seguir em frente para o desconhecido, o novo

Até onde não haja mais chão para caminhar

E ali pousar…

Ânsia, necessidade premente de seguir

Seguir, mas pegando o retorno, voltar

Até um bom lugar, um ponto pacífico, saudoso, confiável

Buscar o conhecido, prazeroso, sentar

E ali pousar…

Todo desejo de seguir esconde um embutido desejo de estacionar

Num lugar de tranquilidade e paz…

Enquanto houver propósito de seguir haverá vida

Em pouso ou em trânsito…

Cada qual faz sua melhor versão do caminho

Cada um sabe o valor de sua vida e das vidas alheias …

Alda M S Santos

É macabro falar de morte?

É MACABRO FALAR DE MORTE?

Muitas são as explicações na tentativa de justificá-la

Uma das poucas certezas da vida: a morte

E ainda assim a desconhecemos e tememos

Atinge a todos, sem exceção

Não escolhe idade, raça, gênero, cultura ou condição socioeconômica

Ainda assim tentamos explicar:

“Estava velho e doente, sofrendo, foi melhor assim”

“Tão jovem, uma vida pela frente, não dá para aceitar”

“Lutou contra o destino, mas não teve jeito, era a hora”

“Esse também desafiou a morte todo o tempo”

“Era um anjinho, nada viveu ainda”

“Uma alma boa, nunca fez mal a ninguém”

Ou a mais ouvida de todas:

“Deus chamou de volta para casa!”

Quem Deus chama de volta?

Qual o critério para voltar para casa?

Deu defeito, venceu o período de garantia?

Precisa de “assistência técnica” especializada?

Deu ou causou perda total e precisa voltar para o fabricante?

E se foi mau uso, tem direito a reparos e retorno às vias?

E aqueles que apresentam reiteradamente o mesmo defeito, destruindo ou arriscando a si e aos outros?

Nessa perspectiva Deus seria o mecânico, o técnico especialista em reparar falhas e danos.

Mas será que Ele não saberia fazer isso com o motor funcionando, com o coração batendo?

Será que quem volta para casa não precisa de injeção de carinho, tratamento intensivo de amor?

E aqueles que não apresentam defeito de fábrica,

Por que voltam para a “oficina”?

Será que Ele não leva alguns tão bons para ajudá-lo lá em cima?

Será que simplesmente não venceram seu “estágio” por aqui?

Será que quem é chamado de volta já não veio com data de retorno?

Qual o critério para escolher o quanto viver e quando morrer?

Olhando por um lado positivo

Quem morre já cumpriu seu papel nessa dimensão,

E volta para a eternidade, para o paraíso tão aclamado!

Não é castigo ou punição a morte, apenas mudança de jornada.

Seriam, então, privilegiados aqueles que vão mais cedo…

Difícil é fazer aqueles que foram deixados para trás

Entender, aceitar e aprender a lidar com a ausência e a saudade…

E, não, falar de morte não é macabro!

Alda M S Santos

Marcas do caminho

MARCAS DO CAMINHO

Há caminhos que escolhemos

Bonitos, diversos, floridos, claros, com fontes refrescantes

Mas que apresentam pedras e buracos a transpor

E há caminhos que nos escolhem, se impõem

Por vezes tranquilos, em outras verdadeiras provações

A ambos imprimimos nossas marcas, deixamos nossas pegadas

Leves, fáceis ou nem tanto para quem vem atrás

Ou pisamos nas pegadas alheias, apagando-as

Preguiça de construir as próprias marcas, dar os próprios passos

Destruindo o que outro construiu com sacrifício

Ou, ao contrário, completando as pegadas alheias

Com sabedoria, amor, perdão e generosidade

Construindo um mundo melhor…

Esses caminhos são os mais gratificantes!

Alda M S Santos

Pedra, papel e tesoura

PEDRA, PAPEL E TESOURA

Pedra, papel e tesoura

Nessa divertida brincadeira de criança

Que aprendemos no grande quintal da infância

E, gostando ou não, levamos para os “tabuleiros” da vida

Buscando sempre o aliado mais forte

Para poder vencer e cantar vitória

Melhor é não ficar de bobeira, pois a vida é passageira

A sorte conta um pouco, a sabedoria vale mais

No vai e vem, no se esconde e se mostra

Vence aquele que não acredita-se invencível

Que não subestima o adversário

Que sabe que todos têm pontos fortes e frágeis

E que a vitória é transitória e temporária como brisa

Depende do adversário a enfrentar

E, muitas vezes, não vale o preço a pagar

Se custa nossa paz de espírito ou se destrói a de alguém

Pedra, tão dura, tão forte

Destrói a tesoura, que corta o papel

Mas perde para o papel que, maleável, a embrulha…

Todos podemos vencer

Todos podemos perder

Nada nem ninguém é tão forte

Que nunca possa perder

Nada nem ninguém é tão frágil

Que nunca possa vencer

Pedra, papel ou tesoura?

Tudo vai depender de você!

Alda M S Santos

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