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Confraternização

CONFRATERNIZAÇÃO

Confraternizar é estender laços

É abrir os braços, apertar os abraços

É celebrar a vida, a amizade, a oportunidade de estar juntos

É uma ação conjunta e fraterna de paz e esperança

É ter afinidades, similaridades, respeito na diferença

É agradecer o dom da vida ao Criador

É buscar em cada abraço, em cada laço, em cada traço

Um sorriso despertador e revelador da alegria e da união entre irmãos…

É comemorar com aqueles que caminham conosco

Que por um motivo ou outro Deus colocou em nossos caminhos…

Confraternização: ação com laços fraternos!

Alda M S Santos

Choro e riso

CHORO E RISO

Com quem divide sua alegria, seu riso, seu prazer

Seu sorriso, suas gargalhadas?

É capaz de rir de si mesmo?

Com quem divide suas lágrimas

Sua tristeza, seus medos, seus segredos e angústias?

É capaz de chorar no colo de alguém?

Já o fez? Ou só chora escondido?

Alegrias e tristezas, dores e prazeres

Extremos da existência que muito exigem:

Afinidade, intimidade, confiança

A habilidade de acolher, ser colo

Requer um coração bondoso, solidário

A capacidade de pedir ajuda, aceitar colo

Exige uma alma grande, humilde

Ambos necessitam de humanidade

Com quem você sorri?

Com quem você chora?

Em quem você provoca sorrisos e lágrimas?

Alda M S Santos

Quando eu crescer

QUANDO EU CRESCER

– Por que você está chorando?

– Porque está doendo!

– Se chorar para de doer?

A garotinha parou um pouco o choro, pensou e disse:

-Não! Mas se não chorar dói mais…

E voltou a chorar

E ele a abraçou…

Assim, duas crianças de idades diferentes debatiam depois do tombo.

E, na sabedoria infantil, esclareciam as dores e curas.

Chorar pode não melhorar a dor ou curar o mal no momento

Mas não sobrecarrega a emoção de lágrimas represadas

E deixa a ferida livre para cicatrização

No tempo certo, sem maiores riscos de infecções…

Crescemos e desaprendemos de como curar um joelho ralado

E ainda temos a pretensão de curar uma emoção abalada

Engolindo o choro e fingindo que ela não existe…

Quando crescer quero ser criança

Sem medo de subir em árvores, balançar nas gangorras

E sorrir ou chorar quando for preciso…

Alda M S Santos

Ah, que saudades…

AH, QUE SAUDADES…

Tenho saudades das muitas de mim

Daquelas que foram ficando pelo caminho

Sufocas ou desnutridas pelas circunstâncias

Perdidas na escuridão das trilhas

Tenho saudades das muitas de mim

Daquelas de confiança cega e sorriso fácil

De entrega apaixonada e sem grandes expectativas

Tenho saudades das muitas de mim

Daquelas de brilho no olhar, coragem e romantismo

Muita energia e boa vontade, até uma certa ingenuidade

Tenho saudades das muitas de mim

Da audaciosa, da atrevida, da sapeca, da nerdzinha

Até da medrosa, chorona ou impaciente

Tenho saudades das muitas de mim

Que foram ficando pelo caminho

Que não me acompanharam até aqui

Que se ofuscaram pelo brilho falso de outras pedras

Que foram se apagando nas gotas das mágoas e decepções

Minguando, minguando até desaparecer…

Tenho saudades das muitas de mim

Mas logo percebo que “elas” todas não se foram

Apenas deram lugar a outra

Foram usadas como ingredientes essenciais

Diluídas na massa de uma grande forma para moldar o que sou hoje…

Quando as saudades de mim atingem forte

Percebo que basta ir para um cantinho

Garimpar bem, com calma e paciência

Que encontrarei meu tesouro: as muitas de mim

Aquelas sem as quais eu não existiria

E fazer as pazes com elas

Fazer as pazes comigo…

Alda M S Santos

Hora de partir…

HORA DE PARTIR…

Era chegada a hora de partir

Para onde não sabia

Apenas sentia, ouvia o chamado

Um chamado incessante de um novo lugar

Desconhecia o caminho, o destino

Sabia apenas que precisava ir…

Sequer tinha conhecimento se teria companhia

Mas era chegado o momento

Despiu-se do passado, foi nua

As novas vestes viriam com o tempo

As únicas vestimentas que levaria consigo

Seriam aquelas que acalentaram, aqueceram a alma

Tornando-a sensível e forte

Ou aquelas que iriam clarear e perfumar sua nova trilha

Jogou para trás as velhas sandálias

E seguiu nua, calçada de coragem

Em busca de novo destino…

Alda M S Santos

Defeitos

DEFEITOS

Aqueles dias que só conseguimos enxergar nossos defeitos

Sequer temos vontade de sair do quarto

Cabelos rebeldes, rugas, dores aqui e ali

Olhos úmidos, ausência de brilho no sorriso

O espelho diz verdades desagradáveis…

Uma avaliação mais profunda mostra sensações ruins

Tristeza com ingratidões, ciúmes, mágoas, desesperança

Saudades de tempos idos, de tempos não vindos

Melhor voltar para a cama e cobrir-se toda

Na expectativa de esconder o que dói

Dormir, talvez sonhar com um “amanhecer” melhor

Buscar lá dentro, bem lá no fundo

O equilíbrio da balança entre qualidades e defeitos

Aquela coragem que sempre faz tudo seguir, sempre em frente

A autoestima necessária para nos tornar melhor para os outros

Mas, especialmente, para nos fazer melhor para nós mesmos

Uma atitude de bondade e compaixão deve começar pelo mais próximo:

Nós mesmos!

Alda M S Santos

Queria viver…

QUERIA VIVER…

Queria um dia chegar aos 103 anos como a Dona Geralda

Mas só se for para ter a lucidez e clareza de ideias dela

Ainda que o corpo não obedeça mais tão bem aos comandos

Queria ter grandes alegrias nos pequenos momentos como a Dona Clarice e seus bichos

Passar o tempo realizando sonhos como a Dona Cristina se alfabetizando

Ou sempre buscando inovação como a minha xará Alda com seu tablet…

Queria viver talvez 95 anos como Dona Altina

Com o prazer de cantar, ter fé e ser grata à vida, ainda que seus olhos não mais enxerguem

Queria manter o dom de fazer poemas e declamar como Dona Yara

Não ter vergonha de chorar como a Dona Eugênia quando tudo doer

Ou de ser receptiva a carinhos e afagos como Dona Tereza, sempre vaidosa

Ter aquele sorriso puro e ingênuo de quem sabe todas as coisas como Dona Elvira,

Mas que prefere se concentrar nas boas…

Mas, queria mesmo, viver muito

Só se fosse para manter-me leve, sem grandes culpas

Aprendendo um pouquinho com cada uma delas

Com o dom de ser poesia na vida de todos

E a capacidade de perdoar, de dar e receber amor

Pois só assim viver vale a pena

Independente da quantidade em anos…

Alda M S Santos

#carinhologos

Trocas imperceptíveis

TROCAS IMPERCEPTÍVEIS

Tantas trocas quase imperceptíveis

Gentilezas por sorrisos, grosserias por afastamento

Doação por gratidão, negligência por saturação

Respeito por admiração, superioridade por antipatia

Sinceridade por empatia, abraços por beijos, doces por queijos

Interesse por aproximação, desrespeito por violência, mentira por desconfiança

Atenção por carinho, ingratidão por inimizades

Descuidos por tanto faz…

A vida nos devolve aquilo que oferecemos

Muitas vezes sequer percebemos

Atraímos o que emitimos

A reciprocidade advém da sintonia de pensamentos e ações

Sintonia é coisa de alma…

Alda M S Santos

Desapego

DESAPEGO

Desapego é a palavra de ordem da vez

Tudo é passageiro, nada é nosso

Para que se apegar se tudo ficará?

Desapegue-se!

Se tudo passará, nada levaremos

Apegar-se é machucar-se, é sofrer

Desapegue-se!

Nessa linha seguimos desapegando de modo errado

Conservando o material, jogando fora o emocional

Desapegando do que é fundamental

Estamos descartando facilmente os sentimentos

Fazendo pouco das emoções boas

Superficializando o amor, superando aquilo que é bonito

Desertificando nossa alma

Tornando áridas vidas alheias

Desapegando de boas relações

Desapeguemos, sim, daquilo que nunca levaremos

Daquilo que, material ou emocional, na verdade nunca foi nosso

Mas aquilo que levaremos registrado na alma, com orgulho

Aquilo que deixaremos tatuado nos corações que ficarem…

E justamente por tudo ser tão passageiro

Façamos valer a pena

Apeguemo-nos ao que é bom e nosso de verdade!

Alda M S Santos

Abra as janelas

ABRA AS JANELAS

As portas estão passadas a chave

Janelas cerradas, persianas baixadas

Espaços interiores fechados, escuros, protegidos

Não deixam a vida entrar, acontecer

Abra as persianas devagar…

Deixe a luz de fora entrar aos poucos

Para não cegar com a claridade do exterior

Olhe lá fora através da vidraça

As cores, o brilho, a intensidade

Encante-se!

Abra as vidraças aos poucos…

Deixe a brisa balançar seus cabelos

O sol aquecer sua pele, arrepiar-se

Respire fundo o ar puro de rosas

Se vier uma tosse não faz mal

Desintoxique-se!

Abra bem as janelas da sua alma

Deixe sair o ar viciado que já não se renova

Deixe a vida renascer!

Depois das janelas abertas

Logo as portas também se destrancarão e se abrirão

Apenas vigie o que entra e o que sai

Portas são para isso mesmo…

Abra as janelas e as portas do seu coração

Areje a alma, a mente

Proteja o que é valioso de intrusos, expulse-os

Convide a luz do céu existente em cada ser para entrar

Sentar e fazer de seu interior sua mais nova morada

Abra as janelas, sente-se, escreva sua história…

Alda M S Santos

Amor desperdiçado?

AMOR DESPERDIÇADO?

“Tanto amei a quem não foi digno de amor”

“Tanto fiz e me dediquei a quem não valia tal grandeza”

“Joguei pérolas aos porcos”

Quantas vezes nos sentimos assim?

Lamentamos o amor, a amizade, o carinho doado

A quem não soube aproveitar

A quem fez pouco caso do recebido

A quem não valorizou atitudes de desprendimento ou sacrifício

A quem não foi leal à entrega e bondade

A quem traiu nossa confiança e dedicação

Será que realmente perdemos por doar?

Olhemos para Ele!

Será que se arrepende de tanto amor doado a quem não fez por merecer?

Temos sido dignos de tamanha grandeza e pureza de amor?

Quem somos nós para reclamar amor doado, não valorizado?

Uma coisa é certa: quem doa amor nunca perde

Nunca!

Quem não sabe receber tem muito a aprender…

Alda M S Santos

Nos lugares errados

NOS LUGARES ERRADOS

Muitas vezes encontramos entre os loucos mais saúde mental e alegria

Que entre os tidos como normais, sem qualquer anomalia

Muitas vezes notamos mais carinho num abraço entre amigos saudosos

Que entre irmãos de sangue e familiares, tantas vezes maldosos

Muitas vezes há mais amor e cuidado na distância

Que entre aqueles que caminham lado a lado sem se dar importância

Muitas vezes há mais vida num leito hospitalar

Que entre aqueles que a desperdiçam entre brigas e lamúrias no lar

Muitas vezes há mais sinceridade num sorriso doloroso que acolhe

Que numa lágrima que se pretende solidária, mas se recolhe

Muitas vezes nota-se mais a presença de Deus entre pagãos e ateus a trabalhar

Que entre religiosos de joelhos diante de um altar

Muitas vezes há mais paz num grito de liberdade para o mundo

Que num silêncio que fere a alma, corta fundo

As coisas estão mesmo nos lugares errados

Ou somos nós que não sabemos procurar?

Alda M S Santos

Escrever…

ESCREVER…

Escrever uma história é se aventurar

É misturar ficção com realidade

É ler sonhos e desejos alheios

É traduzir e transcrever sentimentos

É reviver…

Escrever é viajar na imaginação

É abrir asas, flutuar, ver de cima, de fora

É mergulhar fundo e intensamente na emoção

É se eternizar…

Escrever é se tratar, se curar

É medicar, remediar, vacinar, fazer terapia

É uma catarse…

Escrever é lidar com medos, traumas, angústias, alegrias

É dar um drible na saudade, na dor, nas mágoas e decepções

É fixar aprendizado…

Escrever é também ler, ser lido, decifrar

É fazer-se entender numa história, é identificar-se nos versos do outro

É sintonizar…

Escrever é conversar consigo mesmo

É sensibilizar, é sorrir, é chorar

É um reencontro com seu próprio eu

Passando pelo eu do outro

É intensamente viver…

Alda M S Santos

Pisa fundo

PISA FUNDO

No volante, vidros abertos, cabelos ao vento

Ela pisa fundo…

Uma música após a outra atiçando a vida

Tocando as emoções superficiais ou profundas

Ela pisa fundo, quer ir longe

Encontrar algo perdido, resgatar alegrias e esperanças

Não quer sumir, não quer ir embora

Quer deixar o que for ruim para trás

Quer, paradoxalmente, um caminho que a traga de volta

Por isso ela pisa fundo…

O movimento, a estrada, o vento, a música, a solidão

Tudo leva a reflexões e pensamentos

Uma solidão consigo mesma não é solidão

É encontro… e dos bons…

Alda M S Santos

Entre céu e inferno

ENTRE CÉU E INFERNO

O céu e o inferno existem em nós, coexistindo

Transitamos de um para o outro todo o tempo

Daquela parte que nos faz mal, que nos faz sofrer, que machuca

Para aquela que nos faz bem, alegra, anima, vitaliza, acaricia

Algumas coisas ou pessoas do meio nos instigam, nos levam

A sair de um para o outro, do inferno para o céu e vice-versa

E é a isso que devemos estar atentos

Fugir de pessoas “inferno”, que nos dificultam o trânsito para nosso céu

Buscar pessoas “céu”, que nos deixam em nosso paraíso

Bom mesmo é quando nosso céu se conecta ao céu do outro

Aí fica mais difícil, quase impossível, o trânsito para o inferno

Um céu conectado a outro céu é mais forte, mais iluminado

E não deixa a escuridão do inferno prevalecer …

Céu conectado a outro céu é repleto de anjos bons

E que fazem a vida ser mais linda…

Alda M S Santos

Ingratidão

INGRATIDÃO

Sofrer de ingratidão nem sempre é ter esperado retribuição

Sofrer de ingratidão nem sempre é esperar reconhecimento

Não deveria sofrer de ingratidão quem não esperou nada em troca

Quem deu o melhor de si, disponibilizou tempo, carinho e amor gratuito

E percebeu que o outro sequer percebeu isso…

Mas somos humanos e nos ferimos ao receber ingratidão

Daqueles para os quais mais oferecemos, mais nos doamos

Mais nos arriscamos, mais amamos…

Não é preciso dar algo em troca, apenas ser confiável e não ser indiferente ou maldoso

Mas a cada experiência um degrau de aprendizado

A cada tombo ou lágrima uma cicatriz de sobrevivência

E, após processar tudo, saber que, para um coração grande,

Nao há ingratidão que o atinja a ponto de imobilizá-lo

Ao contrário, aprende que fazer o bem sempre o fará maior

Mais rico, mais bondoso, mais amoroso e solidário …

Aprendendo…

Alda M S Santos

Atrás de um sorriso

ATRÁS DE UM SORRISO

Atrás de todo sorriso há uma história

Nem sempre bonita como possa parecer para alguns

Nem sempre iluminada pelo modo que contagia a outros

Nem sempre sedutora como outros pensariam

Nem sempre mal-intencionada como uns maldosos poderiam crer

Nem sempre alegre e encantadora como todo sorriso deveria ser

Mas atrás de todo sorriso que se dispõe a brilhar num rosto

Mesmo que ele não chegue aos olhos

Ainda que não venha de um coração feliz

Existe uma alma corajosa, grata e disposta a lutar

Sabedora de que um sorriso pode não resolver os problemas

Mas também ciente de que sua ausência pode fazer tudo piorar…

Um sorriso sempre faz bem!

A quem dá, a quem recebe…

Se vier com sinceridade atinge a alma…

Alda M S Santos

#carinhologos

Névoa

NÉVOA

Caía uma névoa fininha

Daquelas que embaçam o tempo

Esfriam até nossos ossos

Da varanda, tomando uma xícara de café recém coado eu observava

Como a natureza tem a capacidade de atingir nossas emoções!

Quando fica assim sinto-me em outro mundo

Dizem que é o momento em que a tristeza e depressão têm seu auge

Tem-se a percepção de que a Terra parou…

Poucos passarinhos se arriscavam a sair de suas casas

A cigarra sossegou seu canto

Beija-flor aparecia e beijava mais rápido que o normal

Para logo se recolher e se aquecer

Parece que a ordem geral em suspense era: recolham-se!

Uns recolhiam-se para dentro de suas casas

Outros, para dentro de suas lembranças e emoções

Outros para os recônditos de suas almas inquietas

Muitos não achavam para onde se recolher

Perdidos…

Esses que costumam não achar o caminho de volta…

Gosto de tempo assim!

Saio admirando as flores molhadas

Os bichos recolhidos, as pessoas que passam apressadas

Ou aquelas que nem se importam com aquela névoa

Que insistia em atingir os ossos

Volto e vou acender o fogão à lenha

Aquecendo…

Alda M S Santos

Somos filhos do mesmo Pai?

SOMOS FILHOS DO MESMO PAI?

“En que mundo vives? Fe en esto? Anda ya…”

Fui questionada num blog ao defender a fé em Deus.

Caminhando numa avenida movimentada, observando tudo a minha volta, lembrei-me disso.

Armava uma chuva forte, céu escuro, ventos fortes.

Um ser humano “qualquer” estava enrolado nos lençóis sob uma marquise.

Uma madame desceu de um carro com seu cachorrinho no colo todo agasalhado.

Vendedores de guarda-chuvas gritavam seu produto.

Ambulantes de ocasião, ofereciam seus serviços.

Em carros escuros e com ar condicionado executivos negociavam nos tablets e nos arranha-céus.

Num ponto de coletivos pessoas se espremiam pra caber num ônibus já lotado.

Um táxi embarcava um único passageiro.

Vários homens de terno e sapatos finos passavam sem ver outros de bermudas e chinelos.

Um casal de pedintes fumava e namorava num cantinho.

Na porta do hospital um médico com roupa verde de bloco cirúrgico tomava um suco no carrinho de lanches.

Na recepção do pronto socorro público cada semblante mais carregado de dor que o outro.

Crianças vestidas de adultas eram levadas por babás em seus carros de luxo.

Outras, quase nuas, esmolavam junto às mães debaixo de uma árvore.

Um senhor velhinho, tal qual caracol, sentado sob seus cobertores e apetrechos, carregava “sua casa”.

Outro juntava todos os lixos que recolhia num carrinho para vender.

Um casal idoso, de mãos dadas, apoiava um ao outro em suas bengalas e limitações.

Um “louco” deitado num canto falava coisas desconexas sobre a guerra das ruas.

Alguns riam, outros ignoravam.

Fiquei olhando um tempo e ele disse: “porque tá chorando, moça bonita?”

Sequer percebi que chorava…

“Vai passar, sou assim mesmo”- respondi sorrindo.

“Vá com Deus, e sorria, menina”!

Tanta desigualdade! Será que somos mesmo todos filhos do mesmo Pai?

O quanto será que cada um ali já lutou nessa vida?

Respondo à pergunta que me foi feita:

“É nesse mundo que vivo!”

Mesmo as pessoas mais desvalidas têm fé!

Sem ela não somos nada nem ninguém!

Segui meu caminho, entrei num hospital público para consulta.

A chuva já caía…mas eu já estava molhada mesmo…

Alda M S Santos

Atemporal

ATEMPORAL

Que não tem tempo, de qualquer tempo

Além de qualquer efeito advindo de temporalidades

Atravessa qualquer época, estação

Cai bem em qualquer tempo ou espaço

E permanece em nós, firme, forte, exigente

Que transpassa e perpassa sentimentos

Agrega, completa, faz parte

E se torna infinito em nós

Atemporal…

Alda M S Santos

Medos

MEDOS

Muitos e muitos medos me seguem

Medo de perder pessoas queridas

Medo de me perder das pessoas amadas

Medo de perder a saúde, a lucidez

Medo de não mais ser capaz de me compadecer pela dor do outro

Medo de perder minhas memórias e lembranças boas

Medo de me decepcionar com amigos e amores

Medo de esquecer ou ser esquecida por quem amo

Muitos medos…

Não é por ausência de fé em Deus

Nem por fraqueza ou fragilidade excessiva

Tampouco por falta de coragem de enfrentá-los

De todas as coisas que me dão medo

Que me causam insegurança e dor

Um aprendizado sempre fica:

O amor é o único medo cuja dor sei que vale o risco…

Alda M S Santos

Águas passadas

ÁGUAS PASSADAS

Águas passadas não movem moinhos

Diz sabiamente o ditado popular

Por que sempre voltamos ao mesmo moinho

Acreditando encontrar as mesmas águas a movê-lo

Ou buscando naquelas novas águas que agora o fazem rodar

As mesmas características anteriores?

Se o moinho é o mesmo, e continua sendo movido à água

Algo semelhante haverá entre essas e as águas passadas.

Buscamos nova familiarização, nova sintonia

O que nem sempre nos atentamos

É para o fato que o moinho também se modificou,

Não é o mesmo moinho de outrora

Tem fissuras, partes escurecidas, está mais silencioso ou barulhento

As mesmas águas que passaram e foram embora rio abaixo

Fizeram seu trabalho na roda do moinho

Deixaram ali sua marca…

Águas passadas não movem moinho

É verdade!

Mas o deixam cada vez mais forte e eficiente

E capaz de aproveitar melhor a força das novas águas …

Águas passadas são lições aprendidas

Nos livros dos moinhos de nossa existência…

Alda M S Santos

Em casa, onde quer que seja

EM CASA, ONDE QUER QUE SEJA

No meio do mato, perdida na mata

Ouvindo os sons do silêncio

Em casa, onde quer que seja…

Numa estrada de terra, margeada de buganvílias

Sentindo o cheiro das cores intensas

Em casa, onde quer que seja…

Mergulhada nas águas de um rio gelado

Dependurada de ponta a cabeça numa árvore centenária

Em casa, onde quer que seja…

Numa casinha de pau a pique, numa barraca de lona

Num colchonete sob céu estrelado

Em casa, onde quer que seja…

Debaixo de uma tempestade, sem energia

Ouvindo o tamborilar das gotas insistentes na janela

Em casa, onde quer que seja…

Num jardim florido e colorido, entre abelhas e borboletas

Ouvindo as cigarras agitadas e o “motor”dos beija-flores

Em casa, onde quer que seja…

No deserto, numa região árida e seca, sob sol escaldante

Em busca de um oásis sonhado

Em casa, onde quer que seja…

A sensação de estar em casa em qualquer lugar

Surge quando estamos bem conosco mesmos

Quando acalmamos nossos gritos, fazemos as pazes com nossos silêncios

Nossa verdadeira casa é aquela que carregamos conosco

Como caracóis…

Se essa casa abala alicerces, trinca paredes, desmorona, em qualquer lugar nos sentiremos intrusos

Todos queremos estar sempre

Em casa, onde quer que seja…

Alda M S Santos

Duelando

DUELANDO

De frente, de costas, de perto ou de longe

Confrontos visando resolver desagravos diversos

Armados: armas brancas, de fogo, palavras, cérebro, coração

E os digladiadores “modernos” continuam a duelar

Quem tombará primeiro?

Quem vence afinal?

Duelos de cunho físico ou emocional

Quem tem o gatilho mais rápido

Ou o chicote mais certeiro?

Qual a arma mais potente?

Qual a palavra mais poderosa?

Qual o prêmio desse entrave, dessa disputa?

Quem são afinal os adversários, quais as desavenças?

Num combate corpo a corpo, mente a mente, alma a alma

Vence aquele que se entrega

Aquele que usa a arma mais poderosa: o coração

Ainda que esteja fora do corpo, ele não nos deixa na mão

Ele sabe até onde pode ir sem matar, sem morrer…

Alda M S Santos

Super-heróis

SUPER-HERÓIS

Um é de aranha, outro é de ferro

A questão é ser herói, super-herói

Uma pantera negra, um humano que se agiganta e se transmuta de raiva…

Um modo de se achar pouco, menos

Ou, ao contrário, perceber-se capaz de ser mais?

Fuga, covardia, alienação ou coragem?

Covardia por imaginar um mundo em que apenas heróis teriam vez

Ou coragem por colocar ali suas angústias, limitações e sonhos?

Entre fantasia e realidade, em quartetos ou duetos, viveu 95 anos

E fez menos amarga, mais feliz, a vida de muitos admiradores e fãs

Quem nunca sonhou em ser um super-herói

Ou ser salvo por um?

Quem nunca valeu-se dessa fantasia em momentos difíceis

Que se enrole na própria teia

Que tenha um coração doce num corpo de ferro

Que seja atingido por raios cósmicos, destruído pela kriptonita

Ou que fique verde de raiva…

O melhor disso tudo é saber que mesmo sem super poderes especiais

De ultra força, visão de longo alcance, capacidades extras

Sem Marvel ou DC

Somos nossos próprios heróis!

RIP STAN LEE

Alda M S Santos

Fios da meada

FIOS DA MEADA

Na grande meada colorida da vida

Muitos fios são puxados

Na tentativa de fazer laços

Enlaces, entrelaces

Buscando desfazer nós…

Sem contudo ficar a sós

Principalmente sem ficar a sós

Puxa um fio verde daqui

Estica um fio vermelho dali

Por dentro, por fora, por cima, por baixo, vai e volta

Faz um zigue-zague, corta alguns nós

Seguindo os mesmos pontos

Desembaraçando…

E encontrando um ponto comum

De preferência bonito, harmônico

Com cores vibrantes e fortes, que nos aqueçam o viver

Formando um laço de amor…

Alda M S Santos

Tão difícil

TÃO DIFÍCIL

Tão difícil quanto segurar espirro ou tosse

Tão difícil quanto conter as crises de riso em situações sérias

Tão difícil quanto mexer com água com vontade de fazer xixi

Tão difícil quanto não dormir deitado diante da TV

Tão difícil quanto manter-se aprumado na ventania

Tão difícil quanto parar qualquer avalanche iniciada

É segurar lágrimas de tristeza, emoção, raiva, mágoa ou decepção

Aquelas que não se quer verter…

Tenta-se distrair a mente, focar noutra coisa, evitar autopiedade

Respirar fundo, contar até 100

E torcer para ninguém, mas ninguém mesmo, notar ou perguntar nada

Qualquer palavra ou olhar doce

Um carinho ou cuidado, qualquer atitude pode trincar a estrutura montada

Romper comportas e ativar uma torrencial tempestade de lágrimas contidas

E acabar por inundar tudo…

Tão difícil!

Alda M S Santos

Não quero!

NÃO QUERO!

Não quero amor por obrigação ou segurança sob tensão

Quero respeito por convicção, ainda que seja sonho vão

Não quero tranquilidade assegurada, atrelada à prisão

Quero paz condicionada à igualdade, ao direito de expressão

Não quero liberdade de alçar voo muito além

Se minhas asas impedirem o voo de alguém

Não quero uma fé retrógrada, ameaçadora, excludente e cega

Quero um Deus de amor, de igualdade e esperança que só agrega

Não quero viver feliz, protegida e segura

Se para isso o outro precisar morrer ou viver na amargura…

Alda M S Santos

Deixa quieto

DEIXA QUIETO

Aquelas palavras que atiçam o que temos de pior

Aqueles silêncios que têm pretensões de se tornar gritos

Deixa quieto!

Aquela ferida que volta a sangrar quando é cutucada

Aquele medo que volta a assombrar quando é relembrado

Deixa quieto!

Aquela luz forte que volta a cegar quando tiramos os óculos

Aqueles gritos que ensurdecem quando se atenta a eles

Deixa quieto!

Aqueles sedimentos que voltam a se misturar à água quanto retirados do repouso

Aquela tranquilidade que passa a doer quando questionada

Deixa quieto!

Mas se for …

Aquela música bela que inunda nossos olhos quando ouvida

Aquelas lembranças boas que invadem nossa alma de saudade

Aquela brisa suave que traz leveza e esperança

Aquela onda que vem e leva o que perturba

Deixa quieto, bem quieto

Encosta num cantinho, respira fundo e deixe a paz reinar…

Alda M S Santos

A Lua mudou

A LUA MUDOU

A coluna dói mais quando a Lua muda de fase

Se o tempo esfria, aquela dor crônica nas articulações piora

Se o joelho incomoda já sabe que vem chuva

A Lua Cheia inspira os amantes

A maré baixa causa indisposição

A natureza dando sinais no corpo

Ou o corpo buscando justificativa para suas alegrias e mazelas?

Chuva, dias nublados, Sol, Lua, estrelas

Belezas, dores e amores inspiram poetas

Ou sua inspiração que faz com que vejam tudo isso

Onde ninguém mais vê?

Transformam em poemas o que veem lá fora

Ou o lá fora apenas ativa, atiça o que já têm cá dentro?

O joelho dói porque vai chover

Ou vai chover porque o joelho doeu?

Qual a mudança na Lua lá em cima

Que sensibiliza poetas cá embaixo?

Que marés são capazes de virar nossos ventos internos?

Ou será que a sensibilidade está bem mais perto daqui

E a Lua é apenas a Lua, o mar apenas o mar,

O amor apenas mais uma dor?…

A Lua mudou…

Alda M S Santos

Dói

DÓI

O que mais doeu e machucou a 44% dos brasileiros

Não foi ouvir do Bolsonaro tais insanidades tão alardeadas

Estamos acostumados a ouvir asneiras de congressistas e candidatos

O que mais doeu foi ouvir tais falas reproduzidas

Na boca daqueles que admiramos e amamos

“Bandido bom é bandido morto”

“Doenças advindas de viadagem não devem ser tratadas pelo estado”

“O erro da ditadura foi torturar e não matar”

Entre tantas que doeram a tantas minorias…

O que doeu e dói é ver máscaras caindo

E isso devemos agradecer a ele!

Não, não apoio corrupção ou roubos

Já votei achando estar certa e estava errada

Mas existem roubos e roubos

Uns levam apenas dinheiro, bens materiais

Outros levam nossa sensação de pertencimento, nossa dignidade de ser humano

Cada qual sabe como sua dignidade é atingida

Sinceramente, espero estar errada

Espero que ele não cumpra nem metade do que “prometeu”

Que consiga apagar o que suas falas atiçaram nas pessoas

Despertou preconceitos arraigados que nele encontraram guarida

Que isso possa mesmo cessar.

Decepcionada, amedrontada!

Que ele possa mesmo fazer um Brasil melhor

Farei minha parte no trabalho e no que sempre fui

Na luta pelo amor e igualdade de todos

Com as armas que sempre dispus

Que não preciso de autorização para portar

Que não mudam a cada eleição…

Alda M S Santos

Quem ama (se)cuida!

QUEM AMA (SE)CUIDA!

Quem ama cuida, protege, defende

Não quer ver o outro sozinho, desamparado ou entristecido

Quem ama quer estar junto

Salvar dos riscos, iluminar os caminhos

Quem ama quer regar e fazer brotar sorrisos

Quer enxugar as lágrimas, dar o colo, o ombro, ser amigo

Quem ama vigia o sono, afasta os monstros, faz um despertar feliz

Acolhe nos pesadelos, realiza os sonhos, sabe o que diz

Quem ama guarda lembranças, um verso, um presente

Um cartão, uma joia, flores desidratadas, não mente

Quem ama compra briga para defender o outro, não se alia ao “inimigo”

Quem ama honra a palavra dada, não foge, é abrigo

Quem ama troca abraços, divide a cama, partilha desejos

Escreve poemas, fala bobeiras, faz serenatas, pede beijos

Quem ama quer viver o amor, confia, não tem ou mete medo

Quem ama não quer privar-se ou privá-lo do amor

Diz bem alto “te amo”, não quer segredo

Quem ama cuida do outro

Quem ama também se cuida!

Alda M S Santos

Quando eu for embora

QUANDO EU FOR EMBORA

Quando eu for embora

Quem de mim sentirá falta?

Aqueles que caminharam comigo

Que tiveram de mim a companhia diária?

Quando eu for embora

Quem de mim sentirá falta?

Aqueles aos quais dei meu melhor, mesmo falha, mesmo nos erros?

Ficará neles a lembrança do meu sorriso, do meu cuidado, do meu amor?

Quando eu for embora

Quem de mim sentirá falta?

Aqueles para os quais trabalhei, ensinei, me dediquei?

Quando eu for embora

Quem de mim sentirá falta?

Aqueles que buscaram em mim a inspiração e energia para continuar?

Quando eu for embora

Quem de mim sentirá falta?

Aqueles que me amaram…

Mas quem me amou de verdade?

Quando eu for embora

Quem de mim sentirá falta?

Aqueles que de mim precisaram, que usufruíram do que pude proporcionar

Que amaram não a mim exatamente, mas o que lhes possibilitei

Esses encontrarão logo substituto quando eu for embora

Sentirão falta de alguém como eu, não de mim…

Nós somos quem amamos e quem nos amou de verdade

Quando formos embora levaremos grande parte deles conosco

Deixaremos muito de nós com eles…

Quando eu for embora

Quem de mim sentirá falta?

Alda M S Santos

Urgências

URGÊNCIAS

As faltas que nos enchem de vazios intensos

Vazios que nos enchem de necessidades

Necessidades que nos enchem de urgências

Urgências que nos derrubam, atropelam os outros

Às vezes nos paralisam, imobilizam

Mas quando bem aproveitadas

Também nos movem na direção do bem, da paz

E nos preenchem de amor

Tão repletos ficamos que chega a transbordar …

Alda M S Santos

Pescaria

PESCARIA

Não estou nervosa, não estou tensa

Mas algo me leva a pescar…

Na beira do lago coloco a isca, lanço o anzol

Pesco a beleza que se transmuta em sons, movimentos e cores

Uma revoada de pássaros que canta no céu

Uma vaca que muge ao longe

O vento que balança as árvores e derruba frutos

As galinhas que cacarejam fugindo dos cães

A água que escorre numa bica e cai no lago

Uma tilápia que nada apressada na água calma

Pesco a beleza visual que dança descuidada sob meus olhos

Pesco o amor do criador em cada criatura

Uso apenas o anzol do desejo de paz

No qual coloco a isca da sensibilidade

Ouço alguém me chamar lá dentro

E saio com o cesto da alma carregado nessa pescaria…

Aceitam um pescado?

Alda M S Santos

Do what you love

“DO WHAT YOU LOVE”

Faça o que você ama, diz a canção

Ainda que seja difícil, tente

Mesmo que o momento exija reflexão, introspecção, negação

Encare!

Faça o que você ama!

Chore, grite, silencie, permita-se sentir

Respeite seus tempos!

Faça o que você ama!

Busque a natureza, água, mato, bichos

Busque a sua natureza interior

Faça o que você ama!

Tome sol, tome chuva, tome coragem

Perca os medos, perca a vergonha, perca a preguiça

Só não perca o respeito por si, pelo outro

Faça o que você ama!

Mate as saudades, deixe lembranças jorrarem

Afogue as dores, faça boca a boca com a paixão

Faça o que você ama!

Abra bem os olhos para o que se mostra

Abra os braços para os abraços

Mergulhe na vida de cabeça!

Mas faça o que você ama!

Alda M S Santos

Reflexos de luz

REFLEXOS DE LUZ

Dia encoberto, nebulosidade intensa

O sol não apareceu…dia “triste”

Rei, cedeu a vez para as nuvens chorosas

Não deixou de existir, não foi embora

Está lá, apenas se pôs atrás, ficou na retaguarda

Ainda assim, emite luz entre nuvens

Aquela que possibilita a sombra das árvores

A mesma que permite o reflexo nas águas…

Tantas vezes quando tudo em nós parece nebuloso e sem esperança

Quando só notamos sombras

Seria bom que lembrássemos que não se formam sombras

Onde a escuridão é total…

Nossa luz, como o sol, apenas está na retaguarda

Busquemos por ela, saibamos esperar

Admirando e aprendendo com os reflexos que se formam

Nas águas que minam de nossos olhos

E irrigam um novo desabrochar…

Alda M S Santos

Eu amo mais!

EU AMO MAIS!

Era uma declaração de amor rasgada

Entre palavras soltas e quase cantadas

Eu te amo!

Era uma declaração de amor correspondida

Eu que amo!

Era uma declaração de amor entre sorrisos e cócegas

Eu amo mais e primeiro!

Era uma declaração de amor “competitiva”

Eu amo você mais que chocolate!

Era uma declaração de amor livre e sem medos

Amo mais que tudo! Nunca minto para você!

Era uma declaração de amor e promessa

Eu te amo para sempre!

Era uma declaração de amor que dispensava palavras

Recíproca e verdadeira

Bastava observar o carinho dos olhares e confiança…

Mas preferiam dizer:

Eu te amo mais!

Alda M S Santos

Felizmente?

FELIZMENTE?

Nos constantes vai-e-vens da vida

Parece que mal superamos uma partida súbita

Ou nos adaptamos a uma chegada inesperada

E as malas já estão prontas novamente…

Choramos ou sorrimos, ou ambos simultaneamente

Nos despedimos…

Minha avó sempre deixa uma mala pronta

“Para o caso de precisar partir”

Uma maneira de não ser pega desprevenida

São tantas as partidas e as chegadas

De pessoas, de desejos, de sentimentos, de expectativas ou esperanças

Que já deveríamos estar acostumados…

Nem tudo que vai, volta

Mas sempre algo está indo, algo está chegando

É nessa rotatividade que a vida se desfaz e se refaz

Felizmente?

Alda M S Santos

Reservado

RESERVADO

Num mundo que se assemelha a um gigante estacionamento

Onde há vagas demarcadas, ou não

Mas não temos lugar reservado, personalizado

E nem sempre há vagas ou espaço para todos

Gostamos mesmo é de estacionar nossos corações no mesmo lugar

Naquele espacinho onde nos cabe direitinho

Onde o sol aquece, mas não queima

Onde o silêncio aconchega e acalenta

Onde há sombra de uma boa cobertura sem esfriar

Onde estamos protegidos de tempestades e granizos

Onde não há qualquer dificuldade de manobras, sem medos

Onde nos encaixamos de olhos fechados sem erros

Com a certeza e prazer de ter chegado em casa…

Encontrar ocupada essa “vaga” não reservada, mas sempre utilizada

Com cones de proteção ou placas de estacionamento proibido

Ou sequer desconfiar que ela não esteja mais disponível para nós

É, no mínimo, angustiante…

Desejo de colocar uma placa de uso cativo com letras garrafais nas vagas que “ocupo”

RESERVADO!

Sujeito a reboque!

Alda M S Santos

Fascinação

FASCINAÇÃO

Sou fascinada pelas alturas: árvores, montanhas, serras, picos

Com sol, chuva, calor ou frio, seja qual for o tempo

Sou atraída para a escalada…

Adoro subir, alçar voo, estar no cume

Mas a verdade verdadeira é que tenho muito medo de altura

Porém, o encanto e desejo de superação são maiores

E chegar lá em cima, ter a maravilhosa visão do alto

A quase sempre refrescante brisa ou ventania bagunceira

O olhar “de fora” para o mundo lá embaixo

Nos conecta mais rápido e facilmente com nosso mundo interior

O afastamento físico dos outros nos faz mais próximos de nós mesmos

Nos faz ver mais facilmente o que nos incomoda, alegra ou machuca

O que vale a pena conservar, valorizar e o que precisa mudar

Tudo passa a ser visto sob nova perspectiva

Entendemos o quanto tudo pode ser minimizado ou maximizado dentro de nós

Diante da grandiosidade do que vislumbramos nesse distanciamento e vemos de lá…

Alda M S Santos

Amor infinito

AMOR INFINITO

Do alto tudo parece mais claro, mais nítido

Que será que Ele vê daqui todo o tempo?

Riqueza e miséria, fartura e carência, falta e desperdício

Violência e delicadezas, amor e ódio

Um povo sofrido e lutador

Uma nação maltratada por alguns

A fé e coragem para prosseguir de muitos

Uma parte desanimada quase jogando a toalha

Aqueles que resistem e insistem no bem

Os que estão iludidos por alguém

Uma batalha sem fim para alcançar as alturas

Que Ele vê?

Daqui tento em minha pequenez

Enxergar com “Seu” olhar

E vejo Seus braços abertos em cruz

Na maravilha simbólica do Cristo Redentor

Vejo amor grandioso e esperança

Ele nos vê e nos ampara de toda parte

Reflito comigo na Sua bondade de pai

O que eu vi não é nem um milésimo do que Ele sente por nós…

Há esperança!

Que possamos sentir sua Luz, seu Amor, sua Proteção…

Alda M S Santos

Sempre comigo

SEMPRE COMIGO

Vontade de te falar sobre todas as coisas que se passam comigo

Dividir contigo meus medos, minhas angústias

Saudade de te contar minhas vitórias, as boas caminhadas

Partilhar aqueles tropeções, machucados, feridas abertas

Sinto falta de ouvir seus conselhos calados

Ou que vêm pelas palavras ou ações dos outros

Quero contar como tenho vivido, o que tem acontecido comigo e com os meus

Sinto falta da sua presença!

Fecho os olhos, de joelhos, faço uma oração

Recordo-me que assim te trago para dentro de mim

E, novamente, te noto perto, sinto sua presença

E te conto tudo…

Lembro-me que a necessidade de contar é minha

Você já sabe tudo de mim, melhor do que eu, mas me ouve

Conhece tudo, tudo, minhas capacidades e limitações

Erros e acertos, e me ampara…

Apenas agradeço e faço um único pedido:

Meu Deus, esteja sempre comigo!

Alda M S Santos

Redoma de vidro

REDOMA DE VIDRO

Não podemos colocá-los numa redoma de vidro, isolando-os do exterior

Não podemos embalá-los à vácuo, engaiolá-los

Não podemos fechá-los numa bolha, protegendo-os

Tampouco podemos voar por eles

Ou tapar todos os buracos e retirar as pedras do caminho

Mas podemos plantar flores perfumadas em canteiros centrais

Cultivar árvores frondosas para dar sombra à caminhada

Para que façam seus ninhos, repousem

Podemos falar sobre trilhas que não levam a lugar nenhum

Podemos alertar sobre os becos sem saída

Sobre voos em áreas turbulentas

Podemos prevenir sobre os “encantos” e estratégias dos inimigos do bem

Aqueles que devagarzinho invadem nossas contas,

Presencialmente ou virtualmente,

Bancárias, físicas, mentais, emocionais, psicológicas

E nos deixam no vermelho com dívidas a pagar

Sem asas para voar…

Não podemos viver pelos outros, nem por quem amamos

Mas àqueles que nos foram confiados

Devemos proteção e cuidado, somos responsáveis!

Alda M S Santos

Sinto-me parte

SINTO-ME PARTE

Sou parte desse universo tão infinito

Em meio à natureza pura e simples

Quando me sinto um tudo

Ou quando me assemelho a um nada

Sinto-me parte desse universo

Que parece muitas vezes tão aleatório

Noutras tao cuidadosamente planejado

Cada pedra, cada galho, cada mato seco

Cada inseto irritante que pica

Cada árvore centenária que balança ao sabor do vento

O riacho que se desfaz em cachoeiras nas rochas

Sinto-me parte…

Mesmo no silêncio ora tranquilizador, ora constrangedor

Que contrasta com meu barulho interior

Tudo parece tão bem encaixado ali

Todos representam tão bem seu papel

Ainda que meus barulhos sem nexo

Pareçam intrusos num roteiro de sons

Que demonstram total harmonia

Sinto- me parte…

Não sei se sou a parte aleatória ou a cuidadosamente planejada

Sei apenas que sinto-me parte…

Alda M S Santos

Choques

CHOQUES

Vivemos nos equilibrando entre virtudes e defeitos

Que trazemos dentro de nós, que são inerentes a todo ser humano

Tentando fazer valer o que nos faz bem sem machucar ninguém

Lutando para deixar prevalecer o que nos faz crescer sem decrescer ninguém

Qualidades e defeitos de dentro em confronto com as de fora

Acionadas pelos convívios que travamos todo o tempo

Uns atiçando mais nossos defeitos

Outros despertando mais nossas virtudes

Tentando não queimar ou sofrer com os curto-circuitos

E sobreviver aos choques entre nosso céu interno que quer brilhar

E o inferno externo que quer se impor e ganhar

E vice-versa…

Buscando um fio terra que estabilize esse circuito de vida e morte…

Alda M S Santos

Alma livre

ALMA LIVRE

Ela é uma poetisa que hoje mora num lar de idosos

Extremamente educada, delicada e gentil

Idade já avançada, mente alerta, olhar “invasor“, observador

Como só os poetas de alma podem ser

Ela me olhava conversar com um idoso de longe sentada em sua cadeira

Apoiada no andador, o corpo não mais acompanha a agilidade da mente e dos sentimentos

Olhava por cima dos óculos todos os demais em roda

Interagindo com a música como podiam

Cantando, dançando, ouvindo, fazendo parte…

Cheguei até ela, fiz um carinho do qual fui correspondida

Perguntei pelos poemas, se ainda escrevia aquelas preciosidades que já declamou para nós outras vezes

“Ah, não! Não tenho mais cabeça e memória para isso, faltam palavras”

“Mas para escrever poemas não precisa memória, precisa sensibilidade e sentimentos que a senhora tem de sobra ”- retruquei

Ela deu um lindo sorriso, fez-me um carinho no rosto

“Que linda e gentil você é! Estava vendo como era atenciosa com aquele senhor.”

“Ele é uma ‘peça’, gosta de conversar. Falava das filhas”- completei

“Mas não são todos que têm paciência com ele! E seu blog, ainda escreve?”

Essa foi a pergunta de quem disse não ter a mente boa…

Falei sobre o blog pra ela há tempos…

Uma alma delicada de poeta naquele corpo frágil, num lar para idosos

Será que se sente presa ali, no próprio corpo, naquele lar, ou a alma é livre?

Não tive coragem de perguntar, mas acho que ela percebeu o que eu sentia/temia

Sorriu e me beijou o rosto, agradeceu a presença

Não tem como não pensarmos no nosso próprio futuro…

Cada Carinhólogo certamente se faz essa pergunta!

Alda M S Santos

#carinhologos

Lá vou eu!

LÁ VOU EU!

Corre, corre, olha, escolhe e se esconde bem

Enquanto o tempo é rapidamente contado

1, 2, 3…lá vou eu!

Euforia ao procurar e encontrar quem se escondeu

Quem nunca brincou?

Esconderijos perfeitos descobertos, sem artimanhas

Quanto menor a criança, maior o prazer de brincar

E o esconderijo nem precisa ser muito misterioso, não

Se se acredita invisível, invisível está

Se eu não vejo o outro, ele também não me vê!

E o esconde-esconde permanece ao longo da vida

Agora cheio de artimanhas…

É instigante esconder ou procurar quem ou o que de nós se escondeu

Mas o verdadeiro prazer está na descoberta, no encontro…

O gozo, o ápice, é encontrar e ser encontrado

Ainda que seja aquela criança que fomos um dia

E que de nós resolveu se esconder…

Onde você está?

1,2,3, lá vou eu!

Alda M S Santos

Fazendo troça

FAZENDO TROÇA

“Em pé sem cair, sentada sem dormir”

Assim ela me responde fazendo troça

Quando pergunto se está tudo bem

Não sabe onde foi parar a juventude

Deve estar presa em cada marca vincada no rosto

Nos cabelos brancos, na boca pintada,

Na vaidade feminina que nunca acaba

Num sorriso sapeca ao dizer que abraço de outra mulher dá choque

Ou ao concordar que o antídoto teria que ser um abraço masculino

Numa vida entre tantos outros idosos naquele lar

Afazeres limitados pela condição física, mental ou financeira

Afinidades com alguns, desavenças com outros

Ainda conseguem sorrir, aceitar carinho

Serem gratos à vida…

Alda M S Santos

#carinhologos

Fecho os olhos

FECHO OS OLHOS

Fecho os olhos quando não quero ver algo

Fecho os olhos quando quero me isolar do exterior

Fecho os olhos quando quero ver melhor

Fecho os olhos quando quero me conectar com meu interior

Fecho os olhos quando não quero ver o que é feio, o que magoa

Fecho os olhos fingindo não ver, não perceber, não saber ou sentir

Fecho os olhos para me proteger do desamor, das decepções

Fecho os olhos quando quero ver o essencial

Fecho os olhos para ver com outros sentidos

Fecho os olhos para ver a brisa leve arrepiar a pele

Fecho os olhos para ver as ondas batendo nas pedras

Fecho os olhos para ver o voo livre das gaivotas

Fecho os olhos para me aquecer nos primeiros raios de sol da alvorada

Fecho os olhos para absorver bênçãos, para potencializar o bem

Fecho os olhos quando quero ver com os olhos do coração

Como num beijo de amor e entrega

Que tudo vê e sente com os olhos da alma…

Fecho os olhos, tudo vejo, tudo percebo…

Feche os olhos!

Alda M S Santos

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