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Abalando muralhas

ABALANDO MURALHAS

Aquelas tempestades que vêm e derrubam tudo

As que todos tememos e olhamos com desconfiança

Enxergando nelas apenas destruição e tragédias

Podem ser exatamente o que precisamos para recomeçar

Há muros que construímos ao redor de nós

Realidades que carregamos como verdades absolutas

Construídas sobre rochas aparentemente fortes

Que só uma boa tempestade para abalar suas estruturas

Mostrar sua real fragilidade e inconsequência

E nos permitir reconstruir, recomeçar

Mas há algumas construções que nenhuma tempestade derruba

São verdadeiras, reais, fortes, divinas

Construídas sobre a rocha do amor…

Muitas muralhas algumas tempestades conseguem derrubar e permitem reconstrução

Outras, é preciso cuidado, só com amor é possível derrubar

Pois carregam consigo estruturas que nos sustentam por inteiro

E que precisam ser resguardadas

Pois são impossíveis de serem reconstruídas…

Alda M S Santos

Bandeira branca

BANDEIRA BRANCA

Se houver paz dentro

Não há guerra cá fora que interfira

Que mude esse status

Mas se dentro for batalha atrás de batalha

A paz exterior pouco terá efeito

Levante a bandeira branca dentro de si

Peça uma trégua a sua alma

E deixe a guerra cá fora entender

Que a paz que todos almejamos

Nasce primeiro em cada um de nós

Em cada coração disposto a amar, perdoar

Acreditar, e seguir em frente…

Alda M S Santos

Hora de partir…

HORA DE PARTIR…

Era chegada a hora de partir

Para onde não sabia

Apenas sentia, ouvia o chamado

Um chamado incessante de um novo lugar

Desconhecia o caminho, o destino

Sabia apenas que precisava ir…

Sequer tinha conhecimento se teria companhia

Mas era chegado o momento

Despiu-se do passado, foi nua

As novas vestes viriam com o tempo

As únicas vestimentas que levaria consigo

Seriam aquelas que acalentaram, aqueceram a alma

Tornando-a sensível e forte

Ou aquelas que iriam clarear e perfumar sua nova trilha

Jogou para trás as velhas sandálias

E seguiu nua, calçada de coragem

Em busca de novo destino…

Alda M S Santos

Defeitos

DEFEITOS

Aqueles dias que só conseguimos enxergar nossos defeitos

Sequer temos vontade de sair do quarto

Cabelos rebeldes, rugas, dores aqui e ali

Olhos úmidos, ausência de brilho no sorriso

O espelho diz verdades desagradáveis…

Uma avaliação mais profunda mostra sensações ruins

Tristeza com ingratidões, ciúmes, mágoas, desesperança

Saudades de tempos idos, de tempos não vindos

Melhor voltar para a cama e cobrir-se toda

Na expectativa de esconder o que dói

Dormir, talvez sonhar com um “amanhecer” melhor

Buscar lá dentro, bem lá no fundo

O equilíbrio da balança entre qualidades e defeitos

Aquela coragem que sempre faz tudo seguir, sempre em frente

A autoestima necessária para nos tornar melhor para os outros

Mas, especialmente, para nos fazer melhor para nós mesmos

Uma atitude de bondade e compaixão deve começar pelo mais próximo:

Nós mesmos!

Alda M S Santos

Depois das tempestades

DEPOIS DAS TEMPESTADES…

Todo pássaro canta feliz depois da tempestade

A noite pode ter sido de muita chuva, barulhos e destruições

Mas eles saem felizes a cantar ao amanhecer

Ao surgirem os primeiros raios de sol…

Eles olham para a frente, para a vida que ainda existe

Não olham para trás, agradecem cantando

E seguem…

Talvez por terem ciência da finitude da vida

Que de uma hora para outra tudo pode se acabar

Não perdem tempo a lamentar

Vivem… e cantam…

Celebram como a dizer

Enquanto houver vida, cantarei…

Minúsculas, lindas e sábias criaturas,

Me levem a dar um voo cantante com vocês?

Alda M S Santos

Super-heróis

SUPER-HERÓIS

Um é de aranha, outro é de ferro

A questão é ser herói, super-herói

Uma pantera negra, um humano que se agiganta e se transmuta de raiva…

Um modo de se achar pouco, menos

Ou, ao contrário, perceber-se capaz de ser mais?

Fuga, covardia, alienação ou coragem?

Covardia por imaginar um mundo em que apenas heróis teriam vez

Ou coragem por colocar ali suas angústias, limitações e sonhos?

Entre fantasia e realidade, em quartetos ou duetos, viveu 95 anos

E fez menos amarga, mais feliz, a vida de muitos admiradores e fãs

Quem nunca sonhou em ser um super-herói

Ou ser salvo por um?

Quem nunca valeu-se dessa fantasia em momentos difíceis

Que se enrole na própria teia

Que tenha um coração doce num corpo de ferro

Que seja atingido por raios cósmicos, destruído pela kriptonita

Ou que fique verde de raiva…

O melhor disso tudo é saber que mesmo sem super poderes especiais

De ultra força, visão de longo alcance, capacidades extras

Sem Marvel ou DC

Somos nossos próprios heróis!

RIP STAN LEE

Alda M S Santos

Que procuras?

QUE PROCURAS?

Um mundo feito de muitas procuras

Muitas vidas feitas de poucos achados

-O que procuras, que buscas?

– Ainda não sei, mas hei de encontrar!

-Se não sabes nem o que buscas

Como queres encontrar?

-Quando encontrar saberei o que preciso

Será sintonia instantânea e atração imediata.

Essa crença que move boa parte da humanidade

É que mantém a roda da vida girando

Que procuras?

Podemos não saber, mas enquanto sentirmos a falta

Estaremos sempre em busca, sem estacionar

Ainda que pensemos ter desistido

O desejo de encontrar o que buscamos

Estará tal qual fumacinha lá no fundo

Bastará um sopro, um toque

Para tudo se acender e voltar ao fogo que atiça a vida…

Que procuras?

Um mundo feito de muitas procuras

Mas muitas vidas feitas de achados na mesma proporção

E a roda segue seu curso infinito…

Que procuras?

Alda M S Santos

Não quero!

NÃO QUERO!

Não quero amor por obrigação ou segurança sob tensão

Quero respeito por convicção, ainda que seja sonho vão

Não quero tranquilidade assegurada, atrelada à prisão

Quero paz condicionada à igualdade, ao direito de expressão

Não quero liberdade de alçar voo muito além

Se minhas asas impedirem o voo de alguém

Não quero uma fé retrógrada, ameaçadora, excludente e cega

Quero um Deus de amor, de igualdade e esperança que só agrega

Não quero viver feliz, protegida e segura

Se para isso o outro precisar morrer ou viver na amargura…

Alda M S Santos

Deixa quieto

DEIXA QUIETO

Aquelas palavras que atiçam o que temos de pior

Aqueles silêncios que têm pretensões de se tornar gritos

Deixa quieto!

Aquela ferida que volta a sangrar quando é cutucada

Aquele medo que volta a assombrar quando é relembrado

Deixa quieto!

Aquela luz forte que volta a cegar quando tiramos os óculos

Aqueles gritos que ensurdecem quando se atenta a eles

Deixa quieto!

Aqueles sedimentos que voltam a se misturar à água quanto retirados do repouso

Aquela tranquilidade que passa a doer quando questionada

Deixa quieto!

Mas se for …

Aquela música bela que inunda nossos olhos quando ouvida

Aquelas lembranças boas que invadem nossa alma de saudade

Aquela brisa suave que traz leveza e esperança

Aquela onda que vem e leva o que perturba

Deixa quieto, bem quieto

Encosta num cantinho, respira fundo e deixe a paz reinar…

Alda M S Santos

Reservado

RESERVADO

Num mundo que se assemelha a um gigante estacionamento

Onde há vagas demarcadas, ou não

Mas não temos lugar reservado, personalizado

E nem sempre há vagas ou espaço para todos

Gostamos mesmo é de estacionar nossos corações no mesmo lugar

Naquele espacinho onde nos cabe direitinho

Onde o sol aquece, mas não queima

Onde o silêncio aconchega e acalenta

Onde há sombra de uma boa cobertura sem esfriar

Onde estamos protegidos de tempestades e granizos

Onde não há qualquer dificuldade de manobras, sem medos

Onde nos encaixamos de olhos fechados sem erros

Com a certeza e prazer de ter chegado em casa…

Encontrar ocupada essa “vaga” não reservada, mas sempre utilizada

Com cones de proteção ou placas de estacionamento proibido

Ou sequer desconfiar que ela não esteja mais disponível para nós

É, no mínimo, angustiante…

Desejo de colocar uma placa de uso cativo com letras garrafais nas vagas que “ocupo”

RESERVADO!

Sujeito a reboque!

Alda M S Santos

Choques

CHOQUES

Vivemos nos equilibrando entre virtudes e defeitos

Que trazemos dentro de nós, que são inerentes a todo ser humano

Tentando fazer valer o que nos faz bem sem machucar ninguém

Lutando para deixar prevalecer o que nos faz crescer sem decrescer ninguém

Qualidades e defeitos de dentro em confronto com as de fora

Acionadas pelos convívios que travamos todo o tempo

Uns atiçando mais nossos defeitos

Outros despertando mais nossas virtudes

Tentando não queimar ou sofrer com os curto-circuitos

E sobreviver aos choques entre nosso céu interno que quer brilhar

E o inferno externo que quer se impor e ganhar

E vice-versa…

Buscando um fio terra que estabilize esse circuito de vida e morte…

Alda M S Santos

Muletas e braços

MULETAS E BRAÇOS

Ora braços, ora muletas

Esse é o rodízio, essa é a alternância da vida

Quem está acostumado a ser apenas braços

Terá dificuldades quando precisar se tornar muletas

E a recíproca também é válida

Braços se apóiam, precisam da segurança da muleta

Para manterem firme o corpo todo

Precisam confiar no apoio que recebem para se entregar

Para não tombar…

Muletas precisam ser fortes e aguentar o peso

Suportar com firmeza o corpo que recai sobre elas

Enquanto forem necessárias!

E a vida segue sempre em frente

Ora braços, ora muletas

Ora caminhos, ora caminhantes

Ora fragilidade, ora força

Ora ombros, ora cabecinha…

Alda M S Santos

Blindados?

BLINDADOS?

Há como nos blindar dos golpes da vida

Ou sempre existirá algo a nos ferir

Até mesmo dentro de uma bolha

Para onde, vez ou outra, preferimos fugir?

Um amigo doente, alguém querido ausente

O emprego que falta, a injustiça que maltrata

Famílias que tentam se preservar, unidos para não tombar

Velhos esquecidos, largados, crianças com um péssimo legado

Alguém que decepciona, a fé que às vezes abandona

A morte que não tem critérios, a vida com poucos refrigérios

Humanos vivendo blindados pelo egoísmo

Humanos atingidos pelo próprio individualismo

Blindados?

Até quando vamos querer nos blindar da vida

Sabendo que é assim, absorvendo tudo que ela apresenta

Do jeito que damos conta, golpeando ou sendo golpeados

Que ela é verdadeiramente vivida?

Alda M S Santos

Fim de semana

FIM DE SEMANA

Sexta, sábado e domingo

Dias da semana associados a prazer e alegria

Fugida da rotina, da corrida frenética por não se sabe o quê

Descanso, sossego, lar, soneca, churrasco, família para alguns

Baladas, noitadas, bebidas, passeios, viagens, grandes programas para outros

Solidão, televisão, um livro, igreja, músicas para outros

Um novo vocábulo surge: “sextou”

Dando início a algo “novo e maravilhoso”

Euforia total que leva muitos que não seguem a corrente ao desespero

À tristeza com gosto amargo de solidão e abandono

A medicamentos controlados, alucinógenos, drogas

É quando o autoextermínio mais aumenta

Entre aqueles que se enfurnam a fazer um balanço da vida

E, frustrados, “invejam” o que os outros “têm” ou estão fazendo

Em quantos se divertem, comem pipoca debaixo do edredom

Vão a cinemas, viajam, fazem amigos, fazem amor…

Mas a balança estraga, pesa só o negativo para si e o positivo para os outros

E, paradoxalmente, os vazios são muito mais pesados

Focar no que é, aparentemente, presença no outro

É evidenciar a ausência em si mesmo

E isso acaba sendo doentio e ineficaz

Não existe nada e nem ninguém tão feliz e tão completo

Nem tão infeliz e tão incompleto

Comparações não são benéficas, são contraproducentes

Nada há de errado com o fim de semana de ninguém

Desde que nele se busque estar em paz consigo mesmo, sem ferir ninguém

Independente das vidas alheias

Todos estamos nesse grande barco aprendendo a remar, a nadar…

Até o cais final…

Alda M S Santos

Anti-Gênio

ANTI-GÊNIO

Chateada com a vida ela tropeça numa lâmpada e a chuta longe.

Sem esfregadinha a lâmpada se acende e logo um gênio cansado aparece.

“Oba! Já sei! Tenho direito a três pedidos!” -ela diz

“Sou o Anti-Gênio, vou retirar três coisas de você!”- ele fala impassível.

“Como assim?”- ela se assusta

“Vou levar três coisas suas, mas deixo você escolher quais.”- retruca

“Mas não tenho nada valioso que você possa querer”

Ela reclama, pede, implora…e nada…

“Se você não escolher eu levo o que quiser”- rebate.

E na lâmpada vão aparecendo as cenas da sua vida

Presas na lâmpada longe dela tudo que pretende destruir

Com as pessoas que ele pretende levar:

Seus pais cuidando dela com carinho

Os irmãos brincando com ela na rua de terra

Os amigos queridos da escola, da igreja

Seu casamento, seu parceiro de todos os dias

Os filhos queridos, tão lindos, tão seus, tão pequenos ainda…

A saúde, a disposição para o trabalho

As amigas sempre presentes…

A cada cena que passava ela chorava e dizia: “isso não”!

“Por que você não procura alguém com muitos bens”?- desabafou

“Isso eu já tenho, quero coisas valiosas”…

“Mas tudo isso é valioso apenas para mim! De que servirão para você”?

“São valiosos para você? Achei por aí….”- pergunta o Anti-Gênio

Ela não sabia o que dizer temendo afirmar que sim, que eram muito valiosos

E ele levar a todos…

“São tudo que eu tenho, não quero mais nada, apenas que fiquem comigo”…

Ela estendeu a mão e foi tocando com carinho as cenas na lâmpada

Cada uma que tocava ia desaparecendo

Voltavam para dentro de si…

E o Anti-Gênio, sem nada mais dela preso em sua lâmpada,

Foi em busca de outras coisas valiosas perdidas de seus donos…

Tudo é tão leve, tão fugaz

E pode escapar de nossos dedos e ir embora a qualquer momento…

Alda M S Santos

Barreiras que nos salvam de nós mesmos

BARREIRAS QUE NOS SALVAM DE NÓS MESMOS

Uma hora são as sombras que turvam a visão

Noutra a claridade excessiva que dificulta o trajeto

Chuvas fortes, granizo, neblina, tempestades

Buracos na via, lama, alagamentos

Um quebra-molas gigante nos obriga a reduzir a velocidade

Um desvio sugerido, convidativo, e insistimos em ignorar

Uma árvore caída que impede quase toda a passagem nos atrasa

Um acidente com alguém interrompe nossa viagem por um tempo

Vários obstáculos no caminho para chamar nossa atenção

Muitas, muitas pedras a transpor

Vários alertas! E ignoramos…

Até que o acidente ocorre conosco mesmos

Forte, doloroso, destruidor

O trilho se parte, o trem descarrilha e ficamos perdidos

Aí somos obrigados a parar, a refletir, a avaliar o que fizemos

Será que é esse mesmo o destino, o melhor caminho?

É preciso recalcular a rota, o veículo utilizado, os companheiros de viagem

Aquele obstáculo no caminho nem sempre é ruim

É apenas algo Superior querendo nos salvar de nós mesmos

De trajetos ruins que não levam a lugar algum

De transporte inadequado, de trilhas defeituosas

De más companhias, do modo de dirigir muito afoito

Das prioridades que temos colocado em nossa viagem

É bom sempre prestar atenção nas estradas, na sinalização

Principalmente nos obstáculos que dificultam de certo modo o seguir

Sentar, ainda que na beira da estrada sem fim

Reavaliar, redirecionar, repensar, recalcular o caminho…

Agradecer tudo de bom, quem nos ama e ora por nós mesmo de longe

Aquelas barreiras que tanto reclamamos

Físicas, mentais ou do coração

Podem ter vindo para salvar não só nossas vidas

Mas várias outras vidas também…

Alda M S Santos

Feridas abertas

FERIDAS ABERTAS

Aquela ferida profunda no dedo

Machucou fundo, doeu, sangrou muito

Ora fratura, atinge nervos importantes

Limpamos, higienizamos, medicamos, repousamos

Isolamos como podemos do ambiente externo

Por vezes são necessárias suturas, enfaixamento para fechamento e cura

E ausência de limitação de movimentos e cicatrizes grandes posteriores

Mas tudo parece atingi-la em primeiro lugar

O dedo ferido “chama” para si todo atrito

Encosta em tudo que atiça novamente a ferida

E, frágil, sequelado, sangra novamente…

Algo em nós que foi machucado ou ferido

Sempre será frágil, sempre terá marcas profundas

Sempre necessitará de cuidados especiais e controle

Sempre será atingido por coisas aparentemente banais

Vale para feridas da carne, do coração, da mente ou da alma…

Alda M S Santos

A “maldição” do quase

A “MALDIÇÃO” DO QUASE

Sempre esteve tão perto, quase conseguiu, foi por pouco

Sente que a vida toda esteve dependurado nos “quase”

Quase ganhou o campeonato de futebol

Quase foi coroado Rei do Amendoim

Quase conquistou a menina mais linda da escola

Quase passou no vestibular

Quase casou-se com o amor da sua vida

Quase conseguiu o emprego dos sonhos

Quase aprendeu a falar inglês

Quase montou o negócio tão almejado

Quase foi morto num assalto-um quase benéfico

Quase morreu afogado no mar- outro nada mal

Quase ganhou na Mega-Sena , ficou na quadra

Quase curou um mal genético

Achava que sua vida se resumia à maldição dos quase

Mas acabou aceitando que de quase em quase a vida segue

E aprendeu a maior lição:

A vida acontece com aquilo que a gente faz nos “quase”

Porque, apesar de existir quase morrer ou matar

Nunca ouviu falar de quase viver…

Alda M S Santos

Inalcançáveis

INALCANÇÁVEIS

Sabe aquele ditado “ver com os olhos e lamber com a testa”?

Uma gaivota voa alto no céu, um barco navega longe no mar

E eu aqui a sonhar…

Nossa vida é muito dividida entre o querer e o poder

Entre o querer, desejar, e ficar apenas na vontade…

Entre o querer e o medo de se arriscar, se aventurar…

Há coisas possíveis e fáceis, coisas difíceis, mas possíveis,

As quase impossíveis e as inalcançáveis!

É como ter perto de nós um oceano convidativo e não saber nadar

Uma árvore frondosa e ter medo de escalar

Um céu gigantesco a explorar e não confiar nas próprias asas!

Mas isso não elimina o desejo de nadar, escalar, voar…

E continuamos a ver com os olhos e lamber com a testa…

Alda M S Santos

Rotas aternativas

ROTAS ALTERNATIVAS
Quando é para ser não há nada que possa impedir
A chuva não molha, ou, se molha, serve apenas para refrescar
Se o sol não aparece, o calor vem de dentro
Se não há luz, brinca-se de fazer figuras de sombras na parede
Se falta dinheiro, sobra criatividade
Se o mal arromba a porta, o bem entra com educação pelas janelas
Se há lágrimas, desesperança, uma dádiva surge de onde menos se espera
Se os medos do escuro assombram, servem também para tornar mais visíveis as fontes de luz
Se os erros pesam nas costas, na consciência, o aprendizado se faz presente
Se o destino parece distante e impossível, as boas companhias são refrigérios
Se falta justiça, sobra compaixão e solidariedade
Se tudo é caro e nada parece valer a pena, surge um amor gratuito
Se a solidão atormenta, o encontro consigo é um presente
Se clamamos por anjos, surgem amigos
Quando tudo parece difícil, a fé fortalece
Quando é para ser, qualquer descaminho é apenas uma rota alternativa…
Alda M S Santos

Sou eu?

SOU EU?

Os caminhos parecem mais longos e estreitos

Ou sou eu que mudei o modo de caminhar?

As pessoas parecem mais perdidas e carentes

Ou sou eu que mudei o ângulo do olhar?

Há menos perspectiva, menos esperança e mais decepções

Ou sou eu que fiquei mais criteriosa?

Os outros estão mais individualistas e indignos de confiança

Ou sou eu que deixei de ser tão crédula?

Há mais fugas que coragem e persistência

Ou sou eu que ando mais amedrontada?

Há mais barulho e alvoroço que felicidade real

Ou sou eu que tenho tido apreço por silêncios verdadeiros?

Há mais alegria comprada, “roubada”, ilegal, finita

Ou sou eu que prefiro alegrias conquistadas por direito, gratuitas?

Há mais sorrisos fabricados e palavras sem sentido

Ou sou eu que estou mais sensível?

Há mais estradas percorridas e menos caminhos a percorrer

Ou sou eu que estacionei em algum momento?

Está mesmo tudo muito mudado

Ou fui eu que mudei e nem vi?

Alda M S Santos

Não combinam

NÃO COMBINAM

Há pessoas que parecem não combinar com gestos de doçura

Nelas o abraço é contido, lateral, envergonhado

Uma demonstração de afeto, se ocorrer, soa com amargura

Um beijo, mesmo na testa, fraterno, parece sempre algo impróprio

O convívio com pessoas fechadas tende a ser difícil, melindroso

Para aquelas que esbanjam carinho e afeto, sem quaisquer amarras

Mas para elas também deve ser complicado, até tenebroso

Manter sentimentos presos num claustro, atrás de invisíveis barras

Nos lábios delas um “eu te amo”, “senti sua falta”, são coisas raras

Não quer dizer que não sintam afeto, ou que vivam de mau humor

Simplesmente não aprenderam que carinho é bom às claras

E que a vida passa melhor quando podemos sentir e demonstrar o amor…

Alda M S Santos

Carrego em mim

CARREGO EM MIM

Carrego em mim variados fardos

Ora leves e relaxantes como água morna e espuma de sais de banho

Ora pesados e frios como sacos de cimento

Ora suaves e doces como beijos de amor

Ora longos e pesados como medo na noite escura

Cargas minhas, cargas dos outros, cargas de todos

Cargas que escolhi, cargas das quais sou responsável

Cargas das quais os responsáveis nem têm ideia que carrego

Cargas que herdei, me impuseram, não tive qualquer escolha

O caminho longo, às vezes mal escolhido também torna-se um fardo a mais

Os caminhantes despareados também desgovernam o caminhar

O desejo de descansar é grande, parar, respirar fundo

Sentar-me à beira do caminho, reavaliar a bagagem

Descartar o que pesa muito e não faz sentido transportar

Devolver cargas que não são minhas

Deixar de carregar esponjas, que absorvem peso, por “isopor”, mais leves

Dividir a carga com companheiros de viagem

Sabendo que carga dividida sempre irá pesar menos

Carrego em mim desejos de chegar

Mas não chegar a qualquer preço, de qualquer modo

Carrego em mim desejos de chegar inteira ao meu destino

Sem ter deixado pedaços quebrados de ninguém pelo caminho…

Alda M S Santos

Nos caminhos da vida

NOS CAMINHOS DA VIDA

Nos caminhos da vida, se olharmos para baixo, para nossos pés

Perderemos as belezas do horizonte colorido adiante

Os lindos contrastes de sombra e luz que nos estimulam

Nos caminhos da vida, se olharmos só para frente

Os aclives acentuados, a poeira, a distância do destino

Podem ser desanimadores e nos fazer desistir

Nos caminhos da vida, se olharmos para dentro de nós

Dependendo dos labirintos escuros que encontrarmos

Poderemos nos perder, escorregar nas desculpas esfarrapadas e medos e estacionar

Nos caminhos da vida, se olharmos para trás

Veremos todo o caminho já vencido, as dificuldades superadas, lutas e conquistas

Retomamos parte do ânimo, da coragem, obtemos um refrigério

Nos caminhos da vida, se olharmos para um dos lados

Veremos uma das razões para seguirmos

De termos chegado até ali: os companheiros de jornada pelos quais fazemos tudo

Nos caminhos da vida, se olharmos para o outro lado

Veremos a força que nunca nos abandona: Deus

Mais um passo à frente, mais firme e seguro, sorriso no rosto cansado

Humanamente, seguimos…

Alda M S Santos

Aparências

APARÊNCIAS?

Tantos os sorrisos de capa de revista

Tantas as lágrimas de novela mexicana

Tantos abraços que pouco enlaçam

Tantos beijos que não tocam a alma

Tantas palavras que não aquecem

Tantas belezas de superfície

Tanta felicidade apenas de fachada

Quanto disso tudo que vemos por aí é real,

Quanto é apenas aparência

Quanto é apenas sobrevivência?

Como saber?

Será que realmente isso nos importa?

Olhamos ao menos duas vezes para notar?

Quem tem sensibilidade para perceber isso

Nos outros, em si mesmos?

Mais vale uma lágrima real, dolorida, sincera, mesmo escondida

Uma saudade que corta fundo, fere, machuca

Uma dor ou mágoa encarada

Que um sorriso largo, que não chega aos olhos

E enche os consultórios psiquiátricos

E o próprio organismo de medicações tarja preta!

Lágrimas? Sorrisos? O que pode estar se misturando às drogas?

Quem se importa se é flor ou espinho?

Alda M S Santos

Oportunidades perdidas

OPORTUNIDADES PERDIDAS

Para onde vão as oportunidades perdidas?

Será que existe uma caixa de oportunidades perdidas e achadas guardada por aí,

Onde a gente pode ir e recuperar a nossa?

Quem sabe escolher uma no nosso número e medida?

Ouvi certa vez que não há oportunidades perdidas.

Nós perdemos, mas sempre há quem as aproveite.

Por medo, ignorância, vaidade, incompetência, excesso de cuidado ou falta de fé,

Deixamos passar boas e raras oportunidades…

Mas também aproveitamos algumas que outros deixaram passar.

Quase sempre inadequadas ao nosso modo de ser…

Insistir numa oportunidade que passou rápido demais, endureceu,

Envelheceu, murchou, encolheu ou é imatura demais, não convém!

É como insistir em calçar um sapato 37 ou 33 num pé 35.

Nunca ficará bonito ou confortável!

Nessa circularidade da vida, qualquer hora surge uma oportunidade só para nós,

Sem “deformações” causadas por outros pés,

Sob medida…e estaremos maduros o bastante para aproveitá-la!

Alda M S Santos

O fim do mundo

O FIM DO MUNDO

“Esse fim do mundo me decepciona”

Ouvi certa vez e pus-me a refletir

O que seria a decepção maior nesse caso:

O modo cruel, traiçoeiro e torturante como o fim se aproxima?

A angústia pela demora ou ausência real de um fim tão proclamado e profetizado?

A tristeza tão profunda de alguém por permanecer aqui enquanto aguarda ansiosa por esse fim que “nunca chega”?

A tortura da espera por algo tão doloroso que não se cumpre

Só pode ser assim tão decepcionante

Se o agora estiver mais temerário que o fim apocalíptico!

Triste viver!

Alda M S Santos

E se fosse com você?

E SE FOSSE COM VOCÊ?

Certo ou errado, bom ou ruim

O melhor jeito de saber é sempre se perguntar

E se fosse com você?

Um comentário de mau gosto, uma crítica em má hora

E a criatura, tão “sensível”, afastou-se magoada

E se fosse com você?

Uma mentira aqui, uma promessa ali, deprimiu-se, aquela vida cerceada

E se fosse com você?

Uma mão que não foi estendida, um pedido de socorro não ouvido, uma lágrima que não foi considerada

E se fosse com você?

Uma vida que foi invadida, uma personalidade não respeitada, fragilidade negligenciada

E se fosse com você?

Bens subtraídos, traição exercida, uma fraude aplicada

E se fosse com você?

Um sorriso apagado, tristeza não evitada, emoção roubada

E se fosse com você?

Sempre tão bons em julgar:

“Mas já foi comigo”

Responsabilidade maior ainda por ter aprofundado

Por saber e ter sentido na pele o certo e o errado…

Quer saber se é bom ou ruim?

Coloque-se no lugar do outro!

Não faça para ele nada mais nada menos do que gostaria que fizessem com você!

Alda M S Santos

Nossos fracassos

NOSSOS FRACASSOS

Eram dois, um preto grande e um amarelado, brigando feio.

Latidas e mordidas se intercalavam na disputa pela cachorrinha marrom que olhava assustada.

Uma mordida, um ganido, e o cão amarelo foge, orelhas baixas.

O preto segue atrás da cadelinha pequenina que foi protegida, vitorioso.

Logo à frente o perdedor já está atrás de outros cães e cadelas, recuperado.

E, provavelmente, envolvendo-se em outras brigas similares, com vitórias ou derrotas…

Aceitássemos assim tão bem e rapidamente as perdas, os fracassos, nossa vida teria menos problemas e complicações emocionais,

Sem ficar remoendo, amargando, acalentando fracassos e dores.

Tudo bem, somos racionais, refletir sobre nossas ações faz parte de nossa essência humana

Sofrer, chorar, nos revoltar com perdas, idem

Até mesmo para evitar fracassar sempre no mesmo ponto, machucando a nós mesmos e aos outros.

Porém, não podemos ficar estacionados lamentando derrotas.

Precisamos passar logo pelas fases de negação, acusação dos outros, de nós mesmos, desejo de vingança, de autopiedade, vitimização, raiva

Até chegar, finalmente, à superação e ao aprendizado

Mais fortes, talvez menos crédulos, mais vividos

Mais perto de Deus…

Alda M S Santos

Represas

REPRESAS

Tantas comportas mantemos represando nossas emoções

Umas já frágeis, turvas, envergadas, machucadas, embaçadas

Na vã tentativa de manter tudo sob controle, aguentamos as pressões

Força de momentos vividos, ou não, causando danos, paredes finas, trincadas

Necessária se faz válvula de escape constante para manter a vazão

Quanto mais cheias nossas represas, mais impactantes serão os danos numa ruptura, mais destruirão nossa fé

É preciso aliviar a pressão, chorar, rezar, gritar, evitar a iminente explosão

Buscar uma vazante qualquer, individual, pessoal, que mantenha nossas barragens intactas, que nos mantenha de pé…

Alda M S Santos

Pontes

PONTES

Pontes são convites, são chamados

Elos a permitir a ida de um lugar a um ainda não-lugar

Aquele que vemos apenas pelas frestas das persianas de nossa mente

Apresentar o desconhecido ao conhecido

Possibilitar o novo, encorajar

Passarelas ou pinguelas, as físicas ou as mentais

Assustadoras para muitos, paralisantes

Fundamentais para tantos…

Necessárias onde há falhas no caminho, obstáculos, interrupções

Rios, mares, montanhas, abismos

Aqueles da natureza ou dentro da gente

Não vale é ficar parado onde já esgotou possibilidades

Ou no meio da ponte a impedir o caminho dos outros

Ou ainda esperando até as forças faltarem para a travessia

Encontrar pessoas ponte, pessoas pinguela

A nos dar as mãos, acalmar nossos medos

Encorajar cada passo na pinguela

“Em frente, não olhe para baixo”

“Um passo de cada vez, tá quase lá, estou aqui”

São ouro num mundo tão cheio de muros…

Alda M S Santos

Nos bancos da calçada

NOS BANCOS DA CALÇADA

Casinhas simples, receptividade gigante, janelas na divisa com a rua

Ao sabor do vento, do sol, da chuva

E dos olhares curiosos de quem passa…

Terreiros grandes que costumam dar num ribeirão

Muitas vezes com hortas, galinheiros, pomares, chiqueiros, cisternas…

Na calçada, banquinhos de todo tipo

Madeiras, troncos de árvores, tijolo, concreto, não importa

A prosa dos fins de tarde após a lida que eles possibilitam é que interessa

O tempo que virou, o filho que não apareceu, o netinho precisando benzer

As galinhas que pararam de botar, o Bingo da igreja,

A comadre que está ruim das vistas ou a teimosia do compadre

A filha que se formou, o neto que nasceu nos Estados Unidos e começou a andar

O prefeito que está envolvido em mais uma falcatrua ou corrupção

A sobrinha que foi para Belo Horizonte com o filhinho doente,

A Maria do João Neto que doou um bezerro para a rifa da festa de Nossa Senhora Aparecida…

Entre os estrepes dos pés e os estrepes da vida

Tudo é compartilhado nos bancos da calçada

E a vida se torna mais leve,

Numa boa prosa de fim de tarde olhando a rua,

Aguardando aquela visita ou telefonema que nem sempre chegam…

Alda M S Santos

Tempestades

TEMPESTADES

Ainda que nosso céu pareça claro

Azul, brisa suave, águas limpas

Tempestades podem se aproximar, molhar tudo

Lançar raios e trovões sobre nossas paredes internas

Vendavais de areia cegar nosso olhar

Balançar nossa estrutura, nos lançar contra as pedras…

Fugir delas nem sempre é possível

Encarar, absorver o que der, abstrair-se do que for possível

Esperá-la passar, sempre passa!

E receber de braços abertos novo céu azul…

Alda M S Santos

Arco-íris ao longe

ARCO-ÍRIS AO LONGE

Sempre visível depois das chuvas, das tempestades

Cores lindas, vibrantes, energizantes

De um lado a outro do céu

Onde quer que a gente esteja

É possível vê-lo,

Se não nos concentrarmos nos obstáculos.

É preciso olhar além, mais à frente, no horizonte

Por perto, pode ainda haver os estragos da tempestade

As cercas farpadas que machucam, sangram

E vendam nossos olhos para as lindas cores adiante…

Se quisermos o “pote de ouro” que há além do arco-íris

Precisamos desfocar a cerca

E caminhar…

Alda M S Santos

Barreiras

BARREIRAS

Quantos muros construímos em torno de nós?

Quantas muralhas mantêm afastados os “inimigos”?

Quantas barreiras impedem que nos vejam como realmente somos?

Atrás de quantos sorrisos se esconde uma tristeza?

No fundo de quantos olhares ternos está entocada uma angústia?

O quanto a simpatia aparente é capaz de esconder?

Brechas se abrem por uns tempos, não entendidas, logo se fecham.

Não somos habituados a tentar transpor barreiras, derrubar muros ou enxergar além deles.

As maiores muralhas que nos afastam dos outros e de nós mesmos

São aquelas invisíveis ou disfarçadas de porteiras abertas.

Alda M S Santos

Gritos

GRITOS

Quantos berros emitimos todos os dias?
Quantos gritos presos em nosso silêncio?

Quantos são de prazer, quantos de dor?

Quantos deles escondidos num olhar opaco?

Quantos deles em forma de sorriso sem brilho?

Quantos deles disfarçados de sussurros contidos?

Quantos confinados num corpo inerte que não consegue abraçar?

Quantas emoções se deixa de viver por contê-los?

Quanta vida se deixa passar por não soltar esse brado?

Há vários modos de “gritar”: sorrindo, chorando,

Gemendo, sussurrando, cantando, orando…

Cada qual escolhe a sua!

Alda M S Santos

Até o infinito

ATÉ O INFINITO…

Seguir, sempre em frente.

Cabelos ao vento, trilha sonora.

Uma estrada longa que se descortina…

Habitada, desabitada, tanto faz!

Ora chuva, ora sol, ora frio, ora calor.

Estações sucedem-se lá fora, estações mexem aqui dentro

Ora lágrimas, ora sorrisos, ora descrença, ora esperança,

Até o infinito, onde quer que ele esteja. 

Tão longe lá fora ou tão perto(?) cá dentro…

Alda M S Santos

Mudanças

MUDANÇAS

O que em nós é passível de mudanças?
Pensamentos, sentimentos, ações?
Sobre quais deles temos controle?

Pensamentos podemos, não sem esforço, desviar, redirecionar.

Ações podemos modificar, amenizar, amplificar ou adequar.

Sentimentos são os mais complicados.

Podemos tentar sobrepor outros a eles, tirá-los de foco, reduzir a importância.

Sentimentos necessitam de alimento,

Quase sempre advindos dos pensamentos e ações.

Redirecionar pensamentos, modificar ações

São meio caminho para sufocar sentimentos,

Ou matá-los por inanição,

Visto que se retroalimentam.

Vale avaliar quais partes de nós esses sentimentos alimentam ou sustentam,

Pois podemos, antes de matar o sentimento,

Desmoronarmos ou matarmos a nós mesmos.

Alda M S Santos

Caos

CAOS
Memórias passadas, presentes, futuras
Misturadas, desorganizadas…
Atropelando-se!
Alegrias, vitórias, tristezas, dores, decepções, desejos.
Todas no mesmo consciente,
Tantas vezes inconsciente.
Vontades, sonhos, expectativas
Realizadas, apagadas, em modo de espera…
Todas atrás da mesma comporta
Com um vertedouro, aparentemente, eficaz,
Calculadamente construída.
Mas que parece querer romper-se a qualquer momento.
Caos ou organização?
Alda M S Santos

Náufragos

NÁUFRAGOS

Quem tem o hábito de mergulhar em si mesmo

É um náufrago experiente.

Sabe que, quer sejam as águas

Doces ou salobras,

É preciso relaxar e não nadar contra a corrente.

Esbracejar só irá precipitar o afogamento.

Alda M S Santos

Piloto automático

PILOTO AUTOMÁTICO
Aqueles dias em que a vontade é de apenas sentar e esperar
Deixar-nos conduzir pelos momentos, pelo vento, sem qualquer interferência,
Seja manual ou emocional…
Programar o piloto automático:
Local de saída e, talvez, de destino e deixar tudo por conta dele,
Como num vídeo game que joga sozinho quando não há jogadores.
Como num avião, equipado com instrumentos que permitem a condução do aparelho,
Sem a intervenção da tripulação,
Regulando desvios de rota e de altitude, assegurando voo e pouso tranquilos.
Não precisar se preocupar com nada,
Nem mesmo obstáculos diversos ou condição climática.
Simplesmente, confiar,
E seguir…
Alda M S Santos
imagem google fotos

Mendigando sentimentos

MENDIGANDO SENTIMENTOS
Preocupamo-nos muito com aqueles que vemos jogados nas ruas
Esparramados num chão quente, sujos, à mercê da bondade ou maldade humanas
Enfrentando as intempéries, comendo o que ganham, corpos implorando por um banho.
Porém, ignoramos ou somos ignorados quando tudo em nós indica outra necessidade,
A de sentimentos, a mendicância emocional.
A começar dentro de nossos próprios lares:
Um filho que se rebela na escola, outro que se enfurna no quarto e nos eletrônicos,
A filha que se esconde em cabelos roxos ou roupas rasgadas, o cônjuge cada dia mais calado.
Cada qual num cômodo da casa, com sua TV, seu tablet, seus celulares, seus “amigos”.
Amigos virtuais aos montes, amigos reais metem medo, geram ojeriza.
Quanto mais se tem, menos se vê, nos próximos, nos distantes, em nós mesmos.
Necessidades que o dinheiro não compra.
São silêncios que gritam, que mendigam amor, atenção, carinho.
Nunca se teve tantos meios de comunicação à disposição e nunca nos entendemos tão pouco!
A Medicina, a Ciência, a tecnologia avançam, mas, para acompanhá-las, perdemos o que temos de mais humano, nossas emoções. Augusto Cury é especialista no assunto.
Jamais houve tanto acesso aos conhecimentos e jamais fomos tão ignorantes!
Nunca tanto se falou de amor, mas nunca se amou tão minimamente,
Tão confusamente, tão perdidamente, tão insatisfatoriamente.
Se um dia desligássemos tudo, pane global e irreversível de comunicação eletrônica, era digital nível zero, a que ponto voltaríamos?
Cartas perfumadas, bilhetes de amor, bate papo no portão dos vizinhos, na praça da igreja?
Será que alguém ainda sabe escrever uma carta manuscrita?
Conseguem conversar olhando nos olhos, sorrindo, acariciando a alma?
Brincar de esconde-esconde, queimada, pular corda ou jogar bola de gude, interagir?
Pagaria qualquer preço para voltar ao ponto no qual perdemos a capacidade de identificar e atender a necessidade de amor de todos que nos cercam.
Pagaria qualquer preço para reduzir o número de mendigos emocionais, para não me tornar uma.
Alda M S Santos

Dias ruins?

DIAS RUINS?
Há dias que definimos como dias de sol: céu azul, nuvens branquinhas, temperatura agradável.
Normalmente, convidam à alegria, aos sorrisos, amigos, passeios, interação.
Há também os dias nublados, com chuvinha insistente, meio frios.
Convidam ao recolhimento, reflexão, introspecção, cama e edredom.
Mas não é regra!
Com sol ou chuva, independente do tempo lá fora, ele pode estar nublado dentro da gente.
Aquela sensação ruim, nó na garganta, vontade de chorar por tudo e por nada.
Qualquer coisa corriqueira parece chata, desanimadora.
Uma palavra menos dócil ou uma atitude mais compreensiva, de carinho, bastam para abrir as comportas.
Há quem identifique como TPM, uns como conflitos existenciais, outros de apenas um dia ruim.
Seja qual deles for, melhor mesmo é chorar. Lágrima presa afoga, sufoca, envenena, mata.
Uma amiga costumava dizer que, quando tinha vontade, chorava mesmo, e alto, como criança. Só assim se sentia melhor.
Somos feitos de sorrisos e lágrimas. Devemos respeitar nossas necessidades. Ambos têm razão de ser
Busquemos as que possam proporcionar mais sorrisos, mesmo com sombras no olhar.
Alda M S Santos

Soltemos as amarras

SOLTEMOS AS AMARRAS

Quando me sinto frágil e incapaz, pra baixo, sempre me lembro daquela história de um elefante preso pelo pé por uma corda a um tronco fraco. 

Todos se admiravam dele não se libertar dali. 

Desde pequenino foi colocado lá, preso.

Tentou sair inúmeras vezes e não conseguiu. 

Forças esgotadas, resignou-se.

Perdeu a crença em si mesmo. 

Cresceu, mas a corda e o tronco permaneciam os mesmos. 

Poderia arrancá-los num único movimento, mas perdeu a fé em sua capacidade. 

Sequer tentava mais. Acreditava que a corda e o tronco eram invencíveis.

Precisamos analisar se o que nos limita é real ou forte o bastante.

Se o inimigo é mesmo tão poderoso e assustador.

Há pessoas e situações que nos colocam uma corda, um tronco. Minam nossa fé em nós mesmos.

Fazem com que desacreditemos na maior mola propulsora que existe: a autoconfiança. 

Alguém pode nos alertar, mas só nós mesmos podemos fazer o movimento para arrancá-las! 

Soltemos as amarras! 

Que o voo seja livre e leve! 

Alda M S Santos

Seu olhar é triste

SEU OLHAR É TRISTE

Numa homenagem às mulheres num lar para idosos,

Ao colocar a faixa de Miss Guerreira numa senhora, abraçá-la e beijar suas faces, ela segurou minhas mãos, carinhosamente, e me olhou nos olhos. Sentei-me ao seu lado.

Ela era muito linda e bem arrumada. Sorriso doce e cativante.

– Você é linda, brinca e parece feliz!- apertou minhas mãos.

-Obrigada!-respondi encabulada.

– Parece uma anja. Mas tem o olhar triste! 

-É? Mas não sou triste!- sorri meu sorriso de palhacinha.

– É preciso ser observadora para perceber. Há uma sombra triste no seu olhar. Falta-lhe algo!

Fiquei embaraçada ao ser analisada assim.

– Talvez! -respondi para não deixá-la sem graça. Ela completou:

– Não se preocupe! Poucos notariam. E ninguém tem tudo mesmo! 

Fiz mais uns carinhos nela, conversamos e fui cantar mais umas músicas.

Ela estava sempre me observando como alguém a dizer:

– Não se preocupe! Só eu notei.

Fiquei a me perguntar se já havia ouvido isso de alguém algum dia.

Será que tenho mesmo essa sombra sinalizadora de falta? 

Cada dia aprendo mais com esses idosos! 

Alda M S Santos

Tá tudo bem?

TÁ TUDO BEM?
Quantas vezes ouvimos essa pergunta?
Quantas vezes a formulamos?
Praticamente 100% das vezes a resposta é: “sim, e você”?
Na maioria delas não passa de pro forme.
Quase nunca respondemos sinceramente.
Não nos dão, ou não damos tempo para uma resposta sincera.
Aquela que demandaria explicação, tempo, atenção, ouvidos, talvez ombros.
As palavras dizem uma coisa e os olhos dizem outra.
Mas quem tem tempo ou disposição para investigar, sequer perceber?
Os olhos dizem “não, estou no meu limite”, “não, estou muito down”!
“Não, preciso de ajuda”, “não, quero colo” ou “não, gostaria de sumir do mapa”.
Se realmente respondêssemos assim, qual seria a reação de nossos interlocutores?
Qual seria a nossa reação, se ouvíssemos respostas como essas?
Certo é que se a pessoa é amiga, próxima, íntima, nem precisaremos perguntar.
Basta notar suas ausências, seu silêncio, seu olhar.
Em todos esses casos, apenas um carinho, um abraço resolveria.
Ou ao menos amenizaria bastante o problema.
Queremos estar bem!
Alda M S Santos

Mudanças

MUDANÇAS
Sempre dizemos ou ouvimos dizer:
Ninguém muda! Cada um é o que é, e pronto!
Isso não é de todo verdadeiro.
Basta fazermos a seguinte reflexão
O quanto ainda existe do nosso eu de outrora
No nosso eu de hoje?
Não fisicamente, óbvio!
Esse pode mudar de modo até engraçado, para não dizer cruel!
Mas nosso modo de pensar, de agir, de aceitar ou recusar
As diferentes propostas da vida são as mesmas?
Há características imutáveis da nossa personalidade,
Mas praticamente tudo pode ser melhorado, evoluído.
Quando tudo parecer difícil, imutável, tentemos mudar a nós mesmos.
Até uma pedra imóvel sob o sol, a chuva, o vento e o luar
Sofre mudanças de cor, espessura, relevo, calor…
Podemos ser muito melhores do que somos!
Com ou sem ajuda externa.
Alda M S Santos

Cristal quebrado

CRISTAL QUEBRADO

Caiu, espatifou-se no chão, separou-se em mil cacos

E o encanto se desfez!

O que estava suspenso, prossegue

A terra volta a girar, pássaros a voar, flores a crescer…

Assim acontece nos contos de fada,

Onde a vida está suspensa pela magia retida num frasco de vidro.

No mundo real magias e encantos também existem:

Na nossa mente que acredita que tudo é possível

Que insiste, determinada, em algo que parece inalcançável

Nas nossas pernas que caminham sempre em frente,

Apesar das dores adquiridas no cansaço

Advindo de tantos descaminhos

Nos corações que toleram a rejeição, a ingratidão,

Que se doam mesmo sem reciprocidade.

Na alma que sempre busca sintonia em outras almas

Em meio a um mundo barulhento e turvo.

Porém, algo em nós retém o encanto, a magia

E eles não podem se perder…

É preciso descobrir e proteger o cristal que os mantém

Uma palavra mal proferida, um vento mais forte,

Um descuido qualquer pode jogá-lo ao chão

O cristal se quebra, a magia se perde, o encanto se vai…

Mente, pernas, coração e alma nunca mais serão os mesmos.

Independente da cola que se use para restaurar o cristal quebrado.

Cristal quebrado e coração partido nunca mais serão os mesmos.

Alda M S Santos

Barreiras emocionais

BARREIRAS EMOCIONAIS
Ao longo de nossas vidas, para nos protegermos dos outros ou de nós mesmos, vamos criando barreiras que cerceiam nossa natureza, nossas emoções, nosso modo de ser.
Alguns de nós mudam tanto que já nem se reconhecem. Somos apenas cópias autenticadas uns dos outros. Originalidade zero. Para agradar a todos, deixamos de ser nós mesmos, nos afastamos de nossa essência.
Existem barreiras e diques que formamos com bases tão fortes, tão resistentes, tão impregnadas que já foram absorvidas, são parte de nossa razão e acabam por estagnar as águas de nossas emoções…
Água parada não tem muita vida. Até parece bela, mas pode putrefar, não se renova, não circula o oxigênio que alimenta a vida que a mantém.
Barreiras e diques são importantes para haver um certo controle emocional, possibilitar nosso crescimento como seres humanos, evitar grandes estragos, mas é preciso manter ativos os vertedouros e abrir um pouco as comportas vez ou outra.
Nossos familiares e amigos mais próximos são essenciais e excelentes vertedouros.
Vamos usá-los! Uma barreira ou dique que se rompe, dependendo do momento, deixa ir embora muita coisa boa.
Alda M S Santos

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