ESPECTROS

Sempre fiquei encabulada com as pessoas idosas que vão perdendo a memória. 

Entre os muitos males que acometem os mais velhos, o que mais me intriga e amedronta é a perda da lucidez, da memória recente.

Meu avô, no final da vida, não se lembrava dos filhos, chamava minha mãe pelo meu nome, misturava dados importantes.

Nosso cérebro é ainda um mistério para a Ciência.

O que faz com que algo de nosso passado distante esteja nítido e algo dos últimos anos se apague? 

Será que “escolhemos”, inconscientemente, o que lembrar? 

Será que o que fica é a melhor parte, o que mais nos marcou ou o que não causa dor? 

Se fosse possível realmente escolher, quais momentos gostaríamos de eternizar em nós? 

Há realmente algo que desejemos apagar sem nos descaracterizar?

Ainda que estejamos marcados nas vidas daqueles que amamos, que convivemos, acho cruel essa perda das lembranças. 

Penso que ao se extraí-las, vão nos apagando aos poucos, viramos um espectro de nós mesmos. 

Pior que isso, só sermos apagados da mente daqueles que amamos. 

Exceto se morrermos cedo, certamente não estaremos incólumes! 

É consenso que ninguém quer perder nada.

Porém, sei que há dissenso, mas, a ter que perder algo, opto em manter minha mente, minha lucidez, minhas memórias.

 E, se possível, minha visão, para ler e escrever. 

Ah! Esqueci que não nos cabe escolher…

Alda M S Santos