OS MUROS DO AMOR
Por Alda M S Santos
Há muitos e muitos anos atrás, um rei muito bondoso, preocupado com a fome que assolava todo seu povo, e com a taxa de natalidade que crescia assustadoramente, baixou um decreto polêmico.
Com o intuito de estabilizar a natalidade e reduzir a fome, dividiu seu reinado com uma muralha. A partir dos quinze anos de idade, todas as moças e rapazes deveriam ficar em lados opostos dos muros. Não teriam qualquer contato com o sexo oposto. Exceto seus pais, que poderiam transitar pelos dois lados.
Assim, moças e rapazes passaram anos e anos convivendo apenas com outros do mesmo gênero.
A taxa de natalidade caiu muito e a fome foi controlada. A tristeza impedia uma alimentação mais consistente e a própria procriação dos casais já formados.
Passado algum tempo de isolamento, a taxa de mortalidade entre esses jovens cresceu assustadoramente, principalmente entre os rapazes, agora homens, o que preocupou bastante o rei.
Um médico foi chamado e nada se notou de doença física que pudesse ter causado tais males.
Teve início uma análise profunda da mente dos jovens remanescentes, os que estavam em melhor estado e aqueles que estavam em tristeza profunda.
Observou-se que a morte tinha ocorrido entre parcelas dos jovens que tinham mantido uma relação mais próxima com outro do sexo oposto antes do confinamento.
Porém, uma parcela menor, que também manteve contato com o gênero diferente do seu, estava em bom estado de saúde emocional.
Nesses, os médicos concentraram seus esforços e o que descobriram mudou toda a história.
Uma jovem, todas as manhãs, ao acordar, dava “bom dia” ao sol numa reverência, e “”boa noite” à lua. Muitas das outras a consideravam louca.
Questionada pelo médico, ela explicou que ao fazer aquilo sentia-se próxima do seu amado que tinha ficado do outro lado do muro. Antes de serem separados à força, todos os dias e noites ambos reverenciavam juntos o sol e a lua de mãos dadas: “Que esse sol que nos ilumina e aquece, mantenha sempre em nós o brilho do nosso amor”. O mesmo era dito à lua.
Ainda em dúvida, o médico verificou entre os rapazes que o que estava em melhor estado era o beneficiário do amor da jovem em questão. Ele também fazia o mesmo ritual.
O doutor acabou por verificar vários outros casos similares: jovens que cultivavam rosas, escreviam poemas, liam livros, nadavam ou exerciam alguma atividade que os conectasse, de alguma forma, aos parceiros do outro lado. Tendo a comunicação cerceada, os jovens arranjaram uma forma de manterem viva a sintonia entre eles.
Diagnóstico: causa mortis: tristeza e saudade. A natureza masculina e feminina necessitava uma da outra para manter sua vitalidade, sua saúde física e emocional.
O rei, arrependido do decreto, mandou que os muros fossem derrubados e que a natureza fosse restabelecida.
Os lindos casais formados tomavam todo cuidado para não formar um muro invisível entre eles.
Aprenderam, a duras penas, que em matéria de amor, tão importante quanto a proximidade física, é manter a comunicação, a sintonia, a proximidade emocional.