UM BOM DIA PARA MORRER

Qual seria um bom dia para morrer? 

Parece óbvio, nenhum, visto que ninguém quer morrer.  

Mas, sabendo que é a única certeza da vida, não seria “justo” que pudéssemos escolher? 

Tanta gente vai embora depois de muita luta, doenças e sofrimentos. Quase até podem imaginar o momento da partida.

Outras são subtraídas da vida no auge dela, em plena alegria e vigor, independente da idade.  

Quando criança ouvia e me impressionava muito sobre o quase fim do mundo com o dilúvio, e profecias sobre o próximo fim ser com fogo. Tinha muito medo! Falava que queria morrer dormindo e logo me arrependia pois, se Jesus, sendo perfeito, tinha morrido sob tortura, quem era eu para desejar moleza?

Mas qual seria o melhor momento? 

Depois de adquiridos todos os bens? Ter viajado muito? Gargalhado até a barriga doer? Trabalhado incansavelmente? Feito incontáveis amigos? Filhos independentes e criados? Ajudado aos mais necessitados? Vivido plenamente o amor que sentiu, que se apresentou? 

Seria melhor ir em plena saúde e energia, ou depois de ter corpo e mente definhados? 

Logo após uma grande alegria e conquista, ou num momento de perda e dor? 

Quando estamos no auge da alegria, amor, prazer, sequer pensamos nela. Tudo é vida! Pareceria injusto sair no melhor da festa! 

Quando sofremos por qualquer mal, nos entristecemos, não temos perspectivas, estamos doentes, pensamos nela com mais frequência. Não parece injusta ou assustadora. Até a encararíamos como uma amiga bem vinda! 

Sem fatalismos ou mau agouro, se ela chegasse hoje, o que pensaríamos? O que “diríamos” em nossa defesa? Ou a seguiríamos tranquilos?

Verdade é que, salvo exceções, não estamos preparados para ela.

Apesar de ninguém querer ficar entrevado numa cama, dependente dos outros, sempre pensaremos que ainda nos falta muito a viver. 

Fomos criados para defender a vida em qualquer circunstância, com ou sem sofrimentos, com 8, 18, 50 ou 80 anos! 

Ainda que em vários momentos tenhamos vontade de jogar a toalha, dizer que cansamos dessa brincadeira, que não está tão divertido assim, que queremos voltar pra casa…

Olhando por esse ângulo não é injusto não termos poder de escolha! Não saberíamos fazê-lo.

Sendo assim, seja qual for o momento que estivermos vivendo, melhor fazê-lo da melhor maneira possível. Se bom ou produtivo, intensamente, se triste ou ruim, fazendo nossa parte e torcendo para passar logo, pois, mesmo que não pareça, sempre passa.

Ideal seria que vivêssemos de tal modo a não temê-la, sequer lamentá-la! 

Ir, ou deixar ir, permitir que a luz se apague, de bom grado e com a certeza de ter feito o melhor que pudemos. 

Um bom dia para morrer? Qualquer um! Só Ele sabe! 

Alda M S Santos