UM, DOIS, TRÊS…LÁ VOU EU! 

Caminhando, fim de tarde, estradinhas de terra, cheiro de mato, brisa suave, sons de pássaros, vista de muito verde. 

Uma cadelinha de “todo mundo” nos acompanha feliz. 

No caminho nos deparamos com várias crianças correndo. Ouço uma delas contar: 1, 2, 3, 4… Procuro de onde vem o som. 

Vejo-a agachada sobre um tronco, olhos tapados, ela é o pegador da vez. 

Parei pra observar. Havia umas dez delas. Blusas e shorts simples, descabeladas, descalças, suadas, sorridentes e felizes. 

Deviam ter entre 7 e 13 anos. O sítio de onde saíram tinha meia dúzia de cachorros agitados. Uma senhora estendia roupas nos varais.

A menininha grita a plenos pulmões: “30, lá vou eu, quem escondeu, escondeu…”.

Há quanto tempo não via crianças brincando de esconde-esconde na rua, como eu fazia! Nostalgia gostosa! 

A modernização, a tecnologia, os avanços urbanos trouxeram muitas melhorias para a vida de todos, mas a perda para a segurança e a liberdade de adultos e, principalmente das crianças, foi devastadora! 

Essa alegria de brincar na rua, ter muitos amigos “reais”, jogar bola, soltar pipa, andar de bicicleta, bater papo sentado no meio-fio, acender fogueira, brincar de jogo da verdade, as crianças de hoje não têm! 

Não há vídeo-game, smartphones, TVs, computadores, tablets ou academias que substituam! 

Falta contato humano!

Vivemos presos em prédios, blocos de concreto, atrás de grades e de medos! 

Meus filhos já não tiveram tanto como eu tive. O que será de meus netos quando vierem? 

Quem pode proporcionar aos seus, e valoriza, faz um esforço e leva-as aonde as brincadeiras e a vida acontecem “de verdade”.

Um deles grita: “1, 2, 3, salvo todos!”. Outra responde: “Mais umas só, que logo vai escurecer e não vai dar”. 

Aqui não tem iluminação pública. Ficar na rua, à noite, só na lua cheia ou com fogueiras. 

Retomo meu caminho, pensativa e faço uma prece silenciosa. 

Que possamos reavaliar o que temos feito de nossas crianças, acreditando estar fazendo o melhor. 

E que Deus permita que os danos não sejam muitos! 

Alda M S Santos