FOGO BRANDO?

Tempo vale ouro. Desperdiçá-lo é crime. Aproveitar cada segundo é a lei. Quanto mais rápido realizarmos uma tarefa, melhor, mais tempo vai sobrar para…

Para que mesmo? Para inventar novas tarefas apressadamente. Tempo ocioso é considerado crime. Sensação de inutilidade, de culpa. Ninguém quer parar para curtir a própria companhia, refletir, ler…

Uma hora livre é ruim, um dia é uma piada, um final de semana, uma heresia.

Saudade de sentar na calçada e prosear com alguém, ouvir música boa, curtir a letra, a melodia, preparar quitandas deliciosas, deitar preguiçosamente numa rede… Sem prestar contas ao relógio!

Todo mundo gosta de comida preparada no fogão a lenha. Ela é cozida lentamente, fica mais saborosa e permanece aquecida por mais tempo.

Mas alguém tem tempo ou paciência para prepará-la? Aliás, ninguém prepara nada. Tudo se compra pronto.

No mundo dos fast-food tudo é rápido e descartável. Ritmo de micro-ondas.

Conversas rápidas e superficiais, quase sempre on-line, trabalhos em linha de produção, zero reflexão, amores rápidos e finitos, vida a jato.

Economizamos tanto o tempo, mas nunca o temos e, quando temos, não sabemos mais aproveitá-lo.

Chegam as doenças mentais, comportamentais, síndromes do mundo moderno.

Eu quero minha vida cozida lentamente. Quero pouco, mas bem aproveitado! Quero-a como um fogão a lenha: quente, saborosa, duradoura, que atraia e agregue todos para junto de si.

Um cafezinho e uma rede depois cairiam bem também.

Quero fogo brando! Que eu aprenda a conquistá-lo!

Alda M S Santos