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O fim do mundo

O FIM DO MUNDO

“Esse fim do mundo me decepciona”

Ouvi certa vez e pus-me a refletir

O que seria a decepção maior nesse caso:

O modo cruel, traiçoeiro e torturante como o fim se aproxima?

A angústia pela demora ou ausência real de um fim tão proclamado e profetizado?

A tristeza tão profunda de alguém por permanecer aqui enquanto aguarda ansiosa por esse fim que “nunca chega”?

A tortura da espera por algo tão doloroso que não se cumpre

Só pode ser assim tão decepcionante

Se o agora estiver mais temerário que o fim apocalíptico!

Triste viver!

Alda M S Santos

Cavalo ou São Jorge?

CAVALO OU SÃO JORGE?

“Enquanto existir cavalo São Jorge não anda a pé”

Há quem tenha dons de cavalo, sem ofensas

E há quem tenha “habilidades” de São Jorge

Diz-se dos aproveitadores que estão sempre procurando algo ou alguém em quem se montar

E seguir mais levemente seu caminho

Independente do peso que coloquem sobre as costas do outro

Sem querer fazer apologia aos folgados

Tampouco ser carrasco da solidariedade

Carregar nas costas ou fazer por alguém algo que poderiam fazer sozinhos não é ajudar

É impedir o crescimento de quem se torna eterno dependente

É usar com que não precisa o lombo forte de cavalo para quem realmente necessitaria…

Todos temos nossos momentos de carregar alguém

Isso é ter compaixão, ser amigo, ser amor, ser irmão..

Mas também precisamos de um colinho de vez em quando

Montar num lombo macio e quentinho alivia muitos males

Descansa as pernas, acalma o coração, traz leveza à alma

E quem está acostumado a ser sempre o cavalo

Quase nunca é visto como cavaleiro cansado

A recíproca também é verdadeira…

É preciso equilíbrio nessa montaria!

Salve, São Jorge!

Alda M S Santos

Aprendizado

APRENDIZADO

Observamos neles a gratidão nas mínimas coisas:

“Deus é muito bom, pois manda vocês para nos alegrar”

A fé inabalável em Cristo:

“Sinto dores, não enxergo mais, tenho 94 anos, e fico aqui enquanto Jesus quiser, ele sabe de tudo”

A capacidade de reflexão, resignação e até uma certa incompreensão dos males

“Não sei porque minhas vistas ficaram assim, nunca fiz mal a ninguém nessa vida”

O arrependimento perante certas atitudes que causaram infelicidade aos outros

“Nunca esperei passar por isso, causar mal a alguém no final da minha vida”

A certeza de que aqui se colhe o que se planta

“Nessa cadeira passo meus dias, mas não reclamo, se devo algo, pago”

E a cada visita aprendemos que ali estão seres humanos que acertaram, que erraram

Vindos de famílias destruídas, por si mesmos, pelos outros

E procuram viver com dignidade e esperança o que lhes resta de vida

Os sentimentos maiores notados ali são: resignação, arrependimento, fé, uma certa nostalgia

E amor, mesmo que em forma de saudade

A nós, não cabe julgar, mas levar todo amor e carinho que pudermos…

Alda M S Santos

#carinhologos

Deus dá o frio conforme o cobertor

DEUS DÁ O FRIO CONFORME O COBERTOR

Diz o ditado: “Deus dá o frio conforme o cobertor”

Bem sabe Ele o que cada um de nós precisa para viver

Uns até parecem ganhar mais que outros

Mas acredito que cada um ganhe de acordo com suas necessidades de aprendizado

E o que cada um faz com o frio ou cobertor que recebe

É que o diferencia dos outros humanos

Que o faz mais ou menos feliz e realizado

Há quem ignore o frio, se rebele contra ele ou faça pouco caso do cobertor

Mas há quem consiga até diminuir o frio de seus semelhantes

Entre tantos males e bênçãos de nossa (des)humanidade

Nem sempre podemos escolher o que recebemos

Mas escolhemos o que fazer com o que temos, com o que nos dão

Há quem despreze uma manta térmica bem quentinha

Mas há quem descubra a força do amor e solidariedade

E faça milagres com um cobertor fininho

Deus não nos desampara, apenas nos deixa escolher nosso caminho…

Alda M S Santos

Escrever é…

ESCREVER É…

Aqueles que se dispõem a traduzir em palavras

Em versos ou prosa o que se passa dentro de si

Que tentam organizar ou dar sentido ao caos

Escritores, poetas, profissionais ou amadores

Quase sempre são acusados de excêntricos, introvertidos, superiores

Ou frágeis, confusos, donos da verdade, narcisistas

Encontraram, ou ao menos buscam, na verdade, um modo de abrandar, silenciar

Todos os barulhos que ecoam e carregam dentro de si

Caminhos que trafegam sozinhos na escuridão ou luz interior

Levando alguns leitores e seguidores afins a fazer o mesmo

Escrever não é um ato superior ou inferior a qualquer outro

Mas é, sem sombra de dúvida, um misto de prazer, alívio, dor, necessidade vital e coragem

Escrever é abrir porteiras e deixar a luz entrar, ou a escuridão sair, tanto faz

Escreve-se não para mudar o mundo, os outros, ainda que possa fazê-lo

Mas uma pequena tentativa, às vezes vã, de mudar a si mesmo…

Alda M S Santos

Aquela tela branca

AQUELA TELA BRANCA

Aquela tela que parece branca

Onde imaginamos muito espaço para pintá-la a nosso modo

Traz consigo cores sensíveis ou vibrantes

Claras, fortes, foscas, disfarçadas, aparentes ou nem tanto

E foi desse jeitinho que ela nos atraiu

Querer que ela se apague, que torne-se inócua

Para receber novas cores a nosso bel prazer

Seria desfazer o que ela tem de próprio e belo

Seria desfazer o que nós temos de nobre e original

Somos, às vezes, tão narcisos que só mergulhamos fundo

Se virmos no outro a nossa imagem refletida

Artista e tela precisam se harmonizar para produzir uma bela obra de arte

EU e TU precisam gerar uma nova obra

EU e TU que gera NÓS, sem descaracterizar ninguém

Essa é a obra perfeita…

Alda M S Santos

Contradições ou hipocrisias?

CONTRADIÇÕES OU HIPOCRISIAS?

Nos revoltamos com o “preço” de um jogador de futebol no mercado

Assustamos com o número de crianças e adolescentes dependentes químicos

Criticamos o trabalho das prostitutas e produção de filmes eróticos

Menosprezamos o trabalho daqueles que fazem nu artístico ou expõem seu trabalho

Ficamos abismados com a violência e desconfiança que nos rondam

Com o consumo de itens desnecessários de todo tipo, com a pirataria

Com a espécie de programação das TVs e divulgação nas redes sociais

Reclamamos da liberdade cerceada e prisões com cadeados de ouro a que estamos submetidos

Somos cristãos ou ateus revoltados com religiosos que abusam da fé dos mais ignorantes

Mas não percebemos que alimentamos tudo isso que criticamos

Quando pagamos caros ingressos para ir aos estádios ou por utensílios da indústria futebolística

Quando consumimos de uma forma ou de outra as drogas dessa vida

Ao “curtir” in loco, on line ou impressas as produções artísticas de nus e erotismo

Ao encher cinemas para assistir violências diversas, ao dar audiência para o que “desprezamos”

Ao cercear a liberdade do outro, ao criar “prisões” para manter perto os que amamos, vegetais, animais ou humanos

Ao pagar por dízimos e absurdos religiosos por um “lugar no céu”

É a lei da oferta e procura!

Se existe no mundo, é porque tem público e apreciadores, há combustível

Só se mantém de bom ou ruim, o que é recíproco, é apreciado, alimentado, tem retorno de algum tipo

O quanto, na hipocrisia que sequer percebemos em nós, contribuímos para perpetuar o que tanto criticamos?

Alda M S Santos

Minhas (des)humanidades

MINHAS (DES)HUMANIDADES

Já ri até a barriga doer de alegria gratuita, mas já acordei de olhos inchados por dormir chorando de tristeza

Já me escondi da minha mãe para não tomar injeção, e de mim mesma para não passar vergonha

Já doei o que vim a precisar, já comprei o que não me era necessário

Já engoli muitos sapos, engasguei com outros, visando salvaguardar a biodiversidade no pântano

Já tive um amor que dispensei, não tive um que desejei

Conquistei amores que valorizo, que me valorizam, presentes que nem sei se sempre mereço

Já fiquei feliz com infelicidade de quem me magoou, já magoei quem me quis bem

Já acreditei em mentiras absurdas e duvidei de verdades verdadeiras

Já fiz promessas que não cumpri, já realizei além do que sequer prometi

Já tive muito medo de morrer, já quis morrer de tanto medo

Já tive raiva e medo de quem amo mais daqueles que não me dizem nada, já causei medos e raivas idem

Já me senti a verdadeira cereja do bolo por agradar e um grão de areia no deserto por não ser aceita

Já me perdi entre muitas escolhas tanto quanto por falta de opção

Já quis ir para a África salvar o mundo, não pude salvar um mundo ao meu lado

Já pensei que meu mundo precisava ser salvo, já quis salvar quem não precisava de mim

Já sonhei muito com o impossível, tendo dificuldade até com o possível

Já tive a vida ameaçada por arma na cabeça por desconhecido,

Mas tive mais medo quando fui ameaçada por palavras e olhares de quem conheço

Já fiz coisas das quais me arrependo, não fiz muito que gostaria ter feito

Já guardei segredos por décadas, já pedi segredos que foram revelados por outros

Já confiei, desconfiei, mas tem coisas que só eu sei de mim mesma

Já chorei dias e noites por uma amizade perdida, a ponto do meu marido intervir, e não me importei por outras que se foram sem dar notícia

Trago lembranças doídas e felizes em mim, mas também devo ser lembrança doída ou feliz na vida de alguém

Já deixei de dizer “te amo” por medo ou vergonha

Mas nunca disse amar sem ter verdadeiramente amado

Assim, entre tantas contradições, vou vivendo e aprendendo,

Levada por minhas (des)humanidades…

Alda M S Santos

Especial

ESPECIAL

Como sempre, hoje é uma data especial para mim, para você

O dia em que você nasceu e recebi, há 26 anos, oficialmente, a mais digna função de uma mulher: ser mãe

E a cada vez as reflexões são as mesmas: estou exercendo bem esse papel?

Ilusão de perfeição não tenho, nem para você, tampouco para mim

Passamos a você uma herança que não escolheu, nem nós, na maioria das vezes

Herança genética, DNA, exemplos, coisas boas e outras nem tanto

Educamos, ensinamos o amor, o respeito próprio, a Deus, ao outro, tentamos contribuir para o bom caráter que você se tornou

Fizemos o que demos conta, o que acreditávamos ser o melhor, dentro de nossas limitações

Mas acredito que você saberá ir eliminando as heranças negativas, conservando as boas,

Mas, principalmente, aprimorando com suas características, o que recebeu de nós.

De tudo quero três coisas de você, resumidas em uma, a razão de estarmos todos aqui:

QUE SAIBA SER FELIZ!

Para tanto, precisa sempre manter sua essência humana e boa, não feri-la, saber amar, perdoar, recomeçar…

Nunca achar que é finito, pronto, imutável, infalível, ser flexível, aceitar mudanças, sempre estará aprendendo, se construindo…

Lutar pelo que acredita, com respeito aos próprios limites e sem ferir o outro,

Pois, felicidade que fere nossa essência, que exclui Deus, e que se baseia na infelicidade alheia não é duradoura!

Mesmo sem perfeição, talvez exatamente pela imperfeição nossa de cada dia,

Você é uma das “minhas” melhores obras abertas

Amo você além do infinito, na atmosfera ou no vácuo…

E, ainda que me torne mais desnecessária a cada dia que passa, estarei sempre aqui…

Parabéns! Deus o abençoe, meu eterno principezinho, Pablo Vinícius!

Alda M S Santos

Expressões

EXPRESSÕES

Há tantas formas de expressão: físicas, mentais, emocionais

E tão pouco entendimento entre as pessoas

Não entendemos o outro e menos ainda nos fazemos entender

Acostumados a selecionar o que mostramos

A esconder emoções que causariam algum malefício

Ou que passariam recibo de fragilidade ou seriam “vergonhosas”

Vamos nos sufocando com nossas emoções…

Um olhar úmido, palavras engasgadas, peito apertado, angústias e medos

Mas o sorriso precisa prevalecer, pedir ajuda é ser fraco

Reclamar é só para ouvir histórias de situações piores, lições de moral

Num mundo em que o certo é se dar bem,

Sacudir a poeira, mesmo que ela cegue a nós mesmos e aos outros

Ser autossuficiente e não depender de ninguém

Fazer a “fila andar” e não perder tempo com “mimimi”

Não dá pra ser zebra frágil num mundo de leões ferozes

Assim, as doenças vão tomando conta e estão aí: pânico,depressão, dependências químicas, transtornos diversos…

Queremos poder chorar, gritar, sorrir, reclamar, ser humanos

Até mesmo silenciar se for nossa vontade

Estar sozinhos por opção e não por falta de um irmão, de um coração

Precisamos nos expressar e nos fazer entender

Antes que não haja mais opção!

Alda M S Santos

Descarrilhou?

DESCARRILHOU?

É fácil ser bom quando tudo parece perfeito

Quando o trem da vida segue nos trilhos

O céu está limpo, jardim florido, pássaros a cantar

Quando somos queridos e amados, quando notamos justiça a nossa volta

Os amigos nos abraçam, há borboletas no jardim e no estômago

A fé prevalece, Deus é Pai, somos agradecidos…

Porém…

Provamos realmente que somos bons e sábios

Se conseguirmos manter certa paz, serenidade e confiança

Quando a saúde física perturba, a emocional oscila

Quando o trabalho é muito cansativo, o chefe nos desvaloriza

Os filhos são rebeldes, com ou sem razão, os pais precisam de ajuda e não pedem ou reconhecem

Os amigos nos abandonam ou não podem estar por perto

O cônjuge nem sempre compreende nossas angústias

O céu escurece, o mundo cai, sem perfumes, sem sorrisos, sem beija-flores

Quando nos decepcionamos, perdemos algo que amamos, nosso time tropeça

Quando nos sentimos lesados e todos parecem se tornar nossos inimigos

Deus não nos ama mais, nos rebelamos, queremos consertar tudo à força…

Nessas horas é difícil ser bom, pacífico

Mas de que vale uma bondade apenas quando tudo parece bem

Se ela é mais necessária quando tudo vai mal?

Se o trem da vida descarrilhar, melhores peritos temos que nos tornar

Para os vagões não desgovernarem e atropelarem todos a nossa volta!

Alda M S Santos

Utopia

UTOPIA

Quando o coração deseja alcançar a todos

Fazer com que aqueles a sua volta se deem bem

Ainda que seus braços não sejam tão longos ou acolhedores

As palavras não sejam doces ou duras o suficiente

O exemplo não seja entendido como bastante…

Até que ponto “respondemos” pelas ações do outro

Se, algumas vezes, mal damos conta de responder pelas nossas?

É utópico!

Mas de utopia também se vive

Quando não se deixa levar pela amargura

E insiste, acredita e luta por um mundo melhor

Ainda que no pequeno círculo de convivências

Respeitando as diferenças individuais

Valorizando as semelhanças…

E aprendendo que todos temos nossos limites

Se quisermos salvar o “mundo”

Por menor que seja a parte dele a ser mudada

Precisamos, primeiro, estar bem conosco mesmos

Para alcançarmos o impossível, até mesmo utópico

É necessário começar pelo possível…

Alda M S Santos

Ele está onde o colocamos

ELE ESTÁ ONDE O COLOCAMOS

Tantas vezes nos espaços estreitos dos labirintos de nossas vidas

Quando mais necessitamos de sol, energia, luz, calor

Um sorriso confiante, uma palavra animadora

Esbarramos nas paredes de nossos limites físicos e emocionais

Paredes frias, úmidas, mofadas, duras, escuras…

As dúvidas, medos, desesperanças quase nos nocauteando

Procuramos por uma força, um estímulo, um amor

Alguém que acredite em nós, nos compreenda, nos aceite, nos perdoe

Buscamos Deus…

E Ele será mais facilmente encontrado

Se soubermos onde procurá-Lo, o espaço que reservamos a Ele nesse labirinto

Se estiver difícil de encontrar, pensemos bem!

Deus está onde O colocamos…

Alda M S Santos

Caminho certo?

CAMINHO CERTO?

O caminho certo e o caminho errado são bem parecidos

Ambos podem ter momentos de flores perfumadas, vias pavimentadas ou de terra

Possuir sol escaldante, sombra, buracos, pedras, frio

Causar exaustão nos aclives e declives acentuados

Podem nos trazer alegrias momentâneas ou tristezas duradouras

Mas o que diferencia realmente um caminho do outro

O que indica quando estamos no caminho certo e iluminado

É a consciência tranquila, leve, a paz de espírito

Trafegar por um caminho errado pesa, dói a consciência

Tornando o caminhar cada dia mais difícil

E, cedo ou tarde, as flores murcham, perdem o perfume

O terreno fica acidentado, o sorriso perde o brilho, a tristeza prevalece…

Observemos atentamente o caminho que escolhemos percorrer

Sem contudo tirar os olhos de nossa consciência

Aquela que reflete nossa alma, o que realmente nos define

E faz tudo valer a pena e ser duradouro…

Alda M S Santos

Da minha janela

DA MINHA JANELA

Da minha janela para fora vejo um quadro bonito

Harmonia das cores, dos tons, dos sons

Verdes e marrons, amarelos e vermelhos, azuis e roxos que se completam

Tudo se mistura, tudo tem seu lugar

Sem perder a beleza da unidade ou o encanto do todo

Latidos, piados, cantos, balidos

Sem disputas, há espaço para todos, sintonia total

Da minha janela para dentro vejo um ateliê confuso

Cores misturadas, pincéis jogados, tons e sons dissonantes, viola desafinada

Alegrias e tristezas, dúvidas e certezas se debatem

Vermelhos e azuis, brancos e pretos, rosas e alaranjados disputando espaço

Sorrisos, lágrimas, diálogos e silêncios “interagindo”

Ora o branco pacífico, ora o vermelho flamejante

Reflexões e decepções, alegrias e amores tomam o espaço: o meu espaço interior

Tentando encaixar o que recebo de fora, as “contribuições” externas

Mesmo que pareçam peças avulsas, cores difíceis, desarmônicas

Ali realizo a minha obra diária

Na tela branca de minha alma pinto meu quadro multicor

A arte linda, difícil e nem sempre compreendida

A arte da existência …

Alda M S Santos

Outono chegou

OUTONO CHEGOU

A brisa suave sinaliza a friagem

O ar mais seco confirma

Dias mais curtos reafirmam

Outono chegou…

Tempo de se preparar, resguardar-se

Perder folhas, flores, até galhos, economizar

Abrir mão do que pode ser dispensado

Ficar nua, livre das vaidades

Usar todos os nutrientes, estocar energia

Nesses tempos de carestia

Para preservar o mais importante: a raiz

Com sabedoria, manter vivo o que é essencial

Irrigar o que poderá trazer novamente na hora certa

Novas folhas, galhos, flores, frutos…

E assim, buscando sempre o amor, a vida se refaz

Vegetal, animal, humana…

Alda M S Santos

Equalizando

EQUALIZANDO

Decepções são como os favores

Nem sempre recebemos ou retribuímos a quem nos “presenteou”

Recebemos favores de um ali

Devolvemos a outro mais na frente

Decepcionamos alguém aqui

Somos decepcionados por outro acolá

Essas são as voltas desse mundo tão cíclico

Ainda que possa parecer cruel

É seu jeito de ser leve e equalizar as coisas…

Alda M S Santos

Bem me quer, mal me quer…

BEM ME QUER, MAL ME QUER…

Se sou sorriso, alegria, disposição, energia

Bem me quer…

Se sou tristeza, nostalgia, lágrimas, desânimo

Mal me quer…

Se sou comunicativa, inteligente e prestativa

Solidária, ponderada, sensual e bela

Bem me quer…

Se estou introspectiva, limitada, preguiçosa ou afoita

Carente, medrosa, descrente e mal-humorada

Mal me quer…

Bem me quer, mal me quer…

Mal me quer, bem me quer…

Nesse vai e vem de quereres

Quem de nós irá sobreviver?

Bem me quer, mal me quer…

O que vale a pena para todos nós

É saber que entre todos os bens ou mal quereres

É que o “bem me quero” é que precisa prevalecer

Para saber dar valor a quem, independente de onde e como estejamos

Conhecendo nossos direitos e avessos

Sempre irá nos bem querer…

Alda M S Santos

Naufrágios

NAUFRÁGIOS

Em naufrágios, quando ficamos à deriva

Não importa o tamanho da embarcação

Ou o valor da carga transportada

Navios, escunas, barquinhos…

Depois de tudo lançado ao mar pela força da tempestade

O que temos de mais valioso e poderá nos salvar é a tripulação

E o que trazemos dentro de nós…

Alda M S Santos

Sentimentos

SENTIMENTOS

Tão insignificante quanto um grão de areia ao vento

Tão pequena quanto uma gota d’água numa pétala de rosa ou uma lágrima no rosto

Tão à deriva quanto um barquinho no mar bravio

Tão inútil quanto um guarda-chuva na forte tempestade

(In)existência total dela à mercê da vida…

Mas o grão de areia pode juntar-se a outros na beleza das dunas

A gota d’água da rosa e das lágrimas tornarem-se um convidativo oásis

O vento forte se acalmar e o barquinho navegar

Tranquilamente levado em busca de novos mares

Onde haja brisas calmas, os sorrisos renasçam

As tempestades sejam belas e suaves

E o guarda-chuva seja apenas um acessório a aproximar corações

Cansados de lutar e de correr

Querendo apenas bater no mesmo ritmo, em uníssono

O ritmo do amor…

Alda M S Santos

É preciso ter amigas!

É PRECISO TER AMIGAS!

Amigas são primeira necessidade, a mais duradoura

Fazem -nos rir de nossas lágrimas

Ao nos mostrar que elas não minam só de nossos olhos

Brincam com nossas mazelas, nossas fragilidades

Nossas rugas de dentro e de fora, nossos cabelos brancos ou humor negro

Entendem nossos silêncios gritados, nossos gritos calados

Aqueles que à primeira palavra dita fazem jorrar lágrimas

Compartilham dos mesmos medos, talvez culpas

Pelos filhos, companheiros, pais e familiares

Entendem nossa necessidade de falar e aliviar, rir e chorar

A dor por uma unha quebrada, cabelo que cai, uma cintura que não afina ou uma ingratidão

A saudade que nutrimos por tempos bons ou nem tanto

Não veem nossas angústias como tempestade em copo d’água

Sabem que podemos sentir raiva mesmo de quem amamos

Principalmente de quem amamos…

Dividem conosco a ansiedade de querer fazer tudo pelos outros

E a angústia de estar sempre sobrecarregada, mas não conseguir ser diferente

Reconhecem a frustração de nem sempre podermos salvar quem amamos apenas com nosso amor e esforços

Aliviam nossos pesos apenas com um sorriso de “estou aqui”

Capazes de puxar a orelha quando percebem uma má escolha

Ou de se unirem em bando para “vingar” quem machuca uma delas

Ora uma está mais forte, ora outra, revezando auxílio

Num rodízio de amor vamos alimentando umas às outras

Amigas não retiram nossos problemas,

Mas nos ajudam a desnutri-los

Alimentando nossas qualidades e pontos fortes

Protegem- nos até de nós mesmas

Quando acreditamos que não somos nada e erramos em tudo…

Companheiros, pais, filhos são muito importantes

Mas há coisas que só outra mulher, e amiga, é capaz de entender

Por nossa sanidade, é preciso ser e ter amigas…

Alda M S Santos

Encastelados

ENCASTELADOS

Encastelados em nossas verdades ficamos (des)confortáveis

Com tantas certezas imutáveis, guardados entre tantas paredes, portas e janelas

Mas que não se abrem, distantes de todos…

Entre príncipes, princesas, reis e rainhas belos, ricos, superiores

Acreditamos estar protegidos do que é verdadeiramente real

A vida fora das paredes antigas daquele lindo castelo ou masmorra em que nos metemos

De uma plebe genuinamente grande, carente e nem sempre tão fiel

Onde príncipes são pessoas comuns, odiosas, às vezes

Princesas nem sempre são doces e obedientes com suas longas tranças loiras

O cavalo, quando existe, manca, dá coices

Madrastas são guerreiras, lindas ou não, lutadoras do borralho

Bruxas ou fadas são mulheres que conquistam a cada dia seu espaço com doçura, ferocidade e encanto

Príncipes são homens que sabem se encaixar na carruagem dessas novas princesas, serem parceiros

E o “felizes para sempre” é apenas início de uma luta diária…

Encastelados parecemos protegidos…falácia

Certezas podem ser confortáveis, mas são limitadoras

O que tem mesmo poder de melhorar nossas vidas e, quiçá, o mundo

São nossas dúvidas…

Vamos abrir as portas dos castelos de nossa existência!

Alda M S Santos

Em construção

EM CONSTRUÇÃO

Não somos somente aquilo que nosso olhar transmite

O que há em nós reflete no outro, diferentemente em cada um

E retorna para nós para processamento

Posso ser vista melhor do que sou, dado o grau do amor de quem me vê

Ou posso ser vista menos do que sou, pela (in)capacidade do receptor de entendimento

Ambos ajudam em minha construção do eu

Instigam melhorias, ainda que pós erros e decepções

Somos uma massa sendo “sovada” todo o tempo

Ora homogênea, ora heterogênea

E essa massa cresce ou míngua a cada contribuição recebida

Pode adquirir sabor e beleza ou desandar, azedar

Dependendo do que o outro nos oferece

Alguns ingredientes são essenciais, outros dispensáveis

E há aqueles que, como a cereja do bolo, são puro encanto

Uma receita antiga, mas cheia de atualizações

Tornamo-nos pessoas dia a dia

Seres incompletos e insossos ao nascer

Vamos recebendo do meio os ingredientes necessários

Para a concretização desse plano de Deus em nós…

Alda M S Santos

Quando…

QUANDO…

Quando alguém chegar, bater à sua porta, peça para se identificar

Exija um crachá, um cartão, um uniforme, um ingresso, um convite, uma credencial

Isso previne que você abra o portão para um ladrão

Além do documento oficial que pouco diz

Observe atentamente o olhar, que muito expressa, a “bagagem” que carrega nas costas

As expressões faciais que traduzem o que vai dentro

Deixe entrar no quintal, na varanda, aos poucos, ou dispense

Mas antes de adentrar sua casa você precisa saber:

Quem é esse alguém que se apresenta e chega assim tão perto?

Qual seu histórico de vida, seu Curriculum Vitae pessoal?

Que pode trazer de verdadeiramente bom para sua vida,

Que você pode contribuir para a vida dele?

Aceite a interação, ajude, permita-se ser ajudado

Mas, evite danos, seja guardião de seus tesouros

Internos e externos…

Independente da “casa” que possua!

“Na sociedade há muitas pessoas que colocam trancas nas portas,

Mas não têm proteção emocional”. (Augusto Cury)

Alda M S Santos

Sepultamentos

SEPULTAMENTOS

Muitos “pequenos” sepultamentos enfrentamos ao longo da vida

Infância e inocência sepultadas tão cedo

Amigos imaginários e super-heróis enterrados pela razão

Amigos “para sempre” da adolescência separados pelas trilhas incertas do futuro

Amizades e amores de juras eternas soterrados pelas circunstâncias, distância ou incompreensão

Sonhos, esperanças, desejos afogados nas águas turvas da realidade

O viver se impõe e “mata” o que poderia sufocá-lo ou estacioná-lo

A vida segue sempre em frente, à nossa revelia, ignorando nossos sepultamentos

Para o renascer faz-se necessário abrir espaço em nossos canteiros internos

Para viver, às vezes, é preciso morrer para algumas coisas

E de pequenas em pequenas mortes ou perdas

De pequenos em pequenos sepultamentos “indolores” a que somos submetidos

Vamos nos preparando para a “perda” derradeira…

Só não vale valorizar mais os sepultamentos que os renascimentos

“Para alguns a vida sepulta mais que a morte”(Mia Couto)

Alda M S Santos

Apenas isso…

APENAS ISSO…

Por sermos humanos demais, com tudo que esse título carrega

De bom ou de ruim

Cobramos mais daqueles a quem mais oferecemos

Exigimos deles muito além do que pedimos aos demais

Daqueles pelos quais mais nos sacrificamos

Aqueles a quem mais amamos,

Dos quais mais precisamos

Que estão ou deveriam estar conosco todo o tempo…

Talvez a lógica dissesse para exigir menos, já que lhes dedicamos amor

Que o amor é paciente, compreensivo, incondicional…

Mas somos humanos demasiadamente, limitados e imperfeitos excessivamente

E pensar mais no outro que em nós nem sempre impera

Um olhar atravessado de quem amamos rasga o peito como adaga, mais que o de um “qualquer”

Uma palavra ou silêncio inoportunos por quem demos tudo nos evisceram dolorosamente …

Quem disse que amor humano é perfeito, que sabe de tudo?

Amor objetiva nos fazer melhor do que somos

Apenas isso…

Alda M S Santos

Nossos afluentes

NOSSOS AFLUENTES

Tão pequeninos e frágeis nascemos, pequeno broto de vida

Tal qual uma pequena nascente, um olho d’água na serra

Carecemos de cuidados e proteção

Nós, de alimento, de abrigo, de calor, de amor

As nascentes, das matas ciliares, das raízes protetoras

Não fossem os cuidados que recebemos ao longo do caminho

Dos afluentes que avolumam nosso leito e fortalecem nossas esperanças

Do sol que nos aquece, alegra, ilumina

Da lua que nos encoraja nos medos da escuridão

Daqueles que confiam e se banham em nossas águas rasas ou profundas

Mesmo com certas represas que se arrebentam e despejam rejeitos sobre nós

Não teríamos forças para desviarmos das pedras, dos obstáculos mil

Pereceríamos muito cedo, antes da linha de chegada

Não chegaríamos ao mar, ao nosso destino…

Alda M S Santos

Instrumentos do bem

INSTRUMENTOS DO BEM

Numa reunião aberta de AA, junto de minha mãe,

Comemorando os 44 anos de tal grupo da irmandade,

Diante de muitos depoimentos de superação

Fui refletindo no quanto Deus nos usa a todo momento uns para os outros.

Ali havia um grupo de leigos, mas que tinha um mal em comum: a dependência alcoólica.

O fundador do AA precisou passar por esse mal para poder entender e ajudar desde então…

Tantos outros casos de ajuda!

Pessoas que perdem entes queridos em acidentes, para drogas ou situações violentas,

E criam grupos de ajuda.

Uma boa parte das pessoas que foram abusadas “caça” os abusadores.

Quantos grupos sem fins lucrativos criados a partir da dor de um ser humano?

Com o objetivo único de superar, ajudando a superação dos outros?

Isso é questão de caráter, de essência, de bondade da alma.

Quem foi abandonado, torturado, traído, abusado ou maltratado de qualquer forma,

Jamais gostaria de ver aquele tipo de sofrimento no outro!

E o que puder fazer para impedir isso, não medirá esforços.

Claro que há outros que não conseguem retirar lição do sofrimento,

E resolvem suas angústias e medos causando em outros o mesmo mal…

Felizmente, não são todos…

Mas a certeza de ter feito todo o possível, às vezes, é o bastante para a paz de espírito de cada um de nós …

Deixemos Deus nos usar, ser instrumentos do bem !

Alda M S Santos

A dor mais doída

A DOR MAIS DOÍDA

A dor mais doída é certamente a que sentimos no momento

Podemos até com certa sensibilidade imaginar a dor do outro

Mas, se nunca a sentimos, não dá para mensurar com precisão

Porém, penso ser unanimidade:

A dor mais doída é aquela que remédio não cura

Uma ida à farmácia e uma cesta de medicamentos não amenizam

Para as dores do corpo há remédio: agudas ou crônicas

Mas para as dores da emoção, da alma, do coração

Não há ida à drogaria que cure!

Aquela mágoa com o outro que aperta o coração

Aquela decepção que inunda olhos e alma

Aquela culpa ou frustração que minam a autoconfiança

A saudade daqueles que se foram sem volta

As dores mais doídas dentro da gente ninguém mensura

As dores mais doídas são as da tristeza e mágoa

Escurecem os olhos, apagam o sorriso, afastam-nos de nós mesmos

A ida à farmácia deve ser substituída por um passeio longo dentro de nós, todos os recantos…

E acreditar que encontraremos um caminho claro e bonito

E seguir…

“A tristeza é como um rio

Se estancada, ela aprofunda.(Pe Fábio de Melo)

Alda M S Santos

Na vitrine

NA VITRINE

Vitrine existe para exposição de objetos, mercadorias ou ideias

Para simples apreciação ou objetivando o comércio

Tudo que ali é exposto sempre parecerá belo e original

Uma joia fica mais brilhante sob luzes

Uma roupa ajustada para parecer sob medida em modelos esqueléticas

Uma maçã lustrada para salivarmos antecipando o sabor

Um carro repaginado para aparentar mais força e potência

Pessoas “maquiadas” para esconderem suas rugas ou “manchas”

Tudo para nos fazer apreciar ou comprar

Despertar o instinto constante de renovação e consumo

Pós “compra”, na maioria das vezes, percebemos que fora da vitrine

Quase tudo é muito parecido, talvez apenas um pouco mais valorizado nela

As luzes nas vitrines são artificiais

E a vida real acontece fora delas

Nem teste drive, provas ou degustações dão a devida dimensão

A joia, a roupa, a maçã, o carro, as pessoas…

Todos terão brilho, força e potência lá ou cá

Tudo dependerá do cuidado que a eles for destinado

Das luzes ou sombras que soubermos projetar sobre cada um…

Alda M S Santos

(Des)confianças

(DES)CONFIANÇAS

Para alguém que sempre confiou gratuitamente

Talvez até ingenuamente, desconfiar é retrocesso ou progresso?

Um olhar mais demorado ou que se disfarça, desvia

“Desconfie! Pode ser ladrão!”

Uma gentileza gratuita, desinteressada, uma palavra de atenção e humanidade

“Desconfie! Querem algo em troca!”

Parece fácil? Desconfie!

Tudo gera desconfiança: qual o interesse?

É a pergunta que sempre repercute!

Recuso-me a desconfiar de tudo e de todos!

Viver acreditando que tudo pode nos fazer mal,

Que conhecidos ou desconhecidos possam trair nossa confiança,

Já é viver no mal!

Não faço apologia à ingenuidade, à confiança cega, à crença burra,

Mas, mesmo tendo algumas decepções dolorosas gravadas na alma,

Sigo esse caminho arenoso da confiança, ora vertendo lágrimas, ora sendo feliz

Ainda prefiro confiar naqueles que conheci e que a conquistaram, a mereceram.

E, até que se prove o contrário,

Que as pessoas que de mim se aproximarem merecerão minha gradativa confiança!

Viver na desconfiança é sobreviver sozinho, num mundo sem graça

É sofrer todo o tempo…

Alda M S Santos

E se fosse com você?

E SE FOSSE COM VOCÊ?

Certo ou errado, bom ou ruim

O melhor jeito de saber é sempre se perguntar

E se fosse com você?

Um comentário de mau gosto, uma crítica em má hora

E a criatura, tão “sensível”, afastou-se magoada

E se fosse com você?

Uma mentira aqui, uma promessa ali, deprimiu-se, aquela vida cerceada

E se fosse com você?

Uma mão que não foi estendida, um pedido de socorro não ouvido, uma lágrima que não foi considerada

E se fosse com você?

Uma vida que foi invadida, uma personalidade não respeitada, fragilidade negligenciada

E se fosse com você?

Bens subtraídos, traição exercida, uma fraude aplicada

E se fosse com você?

Um sorriso apagado, tristeza não evitada, emoção roubada

E se fosse com você?

Sempre tão bons em julgar:

“Mas já foi comigo”

Responsabilidade maior ainda por ter aprofundado

Por saber e ter sentido na pele o certo e o errado…

Quer saber se é bom ou ruim?

Coloque-se no lugar do outro!

Não faça para ele nada mais nada menos do que gostaria que fizessem com você!

Alda M S Santos

Era apenas o tempo…

ERA APENAS O TEMPO…

Era apenas o tempo que passou…

Aquele que quase sempre torcemos para que passe rápido

Quando esperamos por algo que nunca chega

Era apenas o tempo que passou…

Aquele que passa veloz, matreiro

Quando o desejo é que se eternize em nós

Era apenas o tempo que passou…

Aquele que às vezes se arrastou, torturante

Quando a dor doía muito, sangrava, matava aos poucos

Era apenas o tempo que passou…

Aquele que gostaríamos de ter melhor observado, aproveitado

Quando olhando longe, para trás ou para frente, o perdemos

Era apenas o tempo que passou…

Aquele que queremos retomar, recuperar, reverter, consertar

Quando percebemos o quanto erramos conosco e com os outros

Era apenas o tempo

Quando percebemos, se foi…

Foi apenas o tempo que passou…

E nós aqui ficamos resgatando lembranças

As pequenas e saudosas migalhas que ele nos deixa

Para reconstruir, ainda que mentalmente,

Tudo aquilo que ele “levou” de nós…

Era apenas o tempo que passou…

Alda M S Santos

Paixão não se discute

PAIXÃO NÃO SE DISCUTE

Diz a sabedoria popular que três coisas não se discute:

Futebol, política e religião

E é muito fácil descobrir o porquê

A preferência por determinado time de futebol, política ou religião

Foge a qualquer razão, envolve mais alma, coração

Quem se mete a discutir quer explicar o inexplicável

Percebe logo que o outro, tão diferente ou até parecido conosco, pode não ter a mesma paixão

Não faz diferença o gênero, classe social, se é mais culto, inteligente, simples, vivido ou não

Para defendê-la, quase todos se perdem nas trilhas confusas e irritadiças da emoção

Não dá para mensurar aquilo que envolve coração

Não dá para discutir racionalmente o que não se baseia na razão

O melhor jeito de bem conviver é dar ao outro o que reivindicamos para nós

Respeito por nossas escolhas, nossos gostos, nossas paixões

Que ofereçamos a eles o mesmo direito ao silêncio, ao grito, à voz

O mesmo direito de manter-se firme, ou não, em suas paixões

Com o que trazem de único a cada um de nós: satisfações ou desilusões…

A paixão pode e até deve ser diferente, mas o respeito precisa ser equânime…

Alda M S Santos

O que nos move?

O QUE NOS MOVE?

Seres distintos que somos todos

Iguais apenas em nossa humanidade

Essa máquina complexa: corpo, mente, alma

Possuímos os mesmos combustíveis a mover nosso motor diariamente:

A dedicação ao trabalho

O conforto da fé

Carinho das amizades sinceras

Calor de um amor verdadeiro

Alegrias e dores da maternidade/paternidade

Gratidão pela família unida

Satisfação com o estudo e aprendizado

Prazer em cultivar corpo e mente saudáveis

Bem estar em fazer o bem, sempre que possível

Consciência tranquila e cuidado para não machucar ninguém

Acúmulo de bens materiais

Diversões variadas…

As preferências por um ou outro

Leva-nos a tecer a trama complexa da vida

A costurar esse tecido que nos ampara, liberta ou aprisiona

A dependência maior de um ou de outro é que nos difere

E nos torna mais ou menos felizes…

O que nos move?

Alda M S Santos

Anjos e demônios

ANJOS E DEMÔNIOS

Sempre elegemos em nosso meio nossos anjos, nossos deuses salvadores

E também nossos demônios, nossa perdição

Numa hora é um medicamento milagroso, um alimento que cura tudo

Uma religião que salva ou condena a todos, uma máquina poderosa

Pessoas, comuns como qualquer outra, endeusadas ou endiabradas

E ali botamos nossas vidas, nossas esperanças ou desilusões

O lastimável é que nos baseamos na lei do menor esforço

Aquilo que poderá nos manter vivos e bem sem precisar sair do conforto do sofá

Independente do que estiver sendo destruído conosco ou com os outros para que esse “milagre” aconteça

Sem qualquer dor na consciência, sem atingir a alma

Quantas vezes fomos endeusados ou endemoninhados

Por nós mesmos, pelos outros

Qualquer método de salvação ou condenação

Que desconsidere a importância de nossa real participação é ineficaz

Existem anjos e demônios lá fora, muitos…

Mas os que têm poder de mudar qualquer coisa em nossas vidas

Aqueles que podemos temer ou nos quais depositar nossas esperanças

Moram dentro de nós mesmos

E ora parecem anjos, ora parecem demônios

Dependendo da situação em que se encontrem, em que atuarão

Cabe a nós despertá-los ou adormecê-los

Se quisermos nossa paz interior…

Alda M S Santos

Atire a primeira pedra!

ATIRE A PRIMEIRA PEDRA!

Maria Madalena, prestes a ser apedrejada pelos seus erros

Uma multidão hipócrita e furiosa ansiosa para nela descarregar seus próprios pecados “escondidos”

Se Jesus tivesse dito pra ela denunciar todos que com ela pecaram para se “redimir”

Tipo uma delação premiada obtendo um desconto nas próprias falhas

Metade da multidão desistiria da acusação

Até encontrariam adjetivos positivos para a adúltera, que justificassem seus erros

A começar pelos que com ela pecaram, erraram, obtiveram vantagens

O erro dos outros sempre nos desperta para os nossos próprios

A atitude que tomamos a partir daí é que nos diferencia…

Se isso fosse posto em prática hoje, nosso congresso e STF estariam vazios,

Ou cheio de “santos” com as pedras nas mãos?

Tão antiga, tão atual essa história!

Falta apenas ouvirmos Jesus dentro de nós,

“Vá e não peques mais”!

Alda M S Santos

O bem contido no mal

O BEM CONTIDO NO MAL

Em todo mal, se olhado com cuidado, se melhor observado

Há algo de bom que possa ser aproveitado

A luz não teria tanto brilho, se a sombra não amedrontasse

A liberdade só é tão almejada por quem já viveu qualquer tipo de prisão

A saúde é percebida como um bem maior quando sofremos qualquer dor

O silêncio é melhor sentido pós barulho intenso

O amor é indispensável a quem sofreu com indiferença

A paz é maior bênção onde já se viveu a guerra

Alimento e abrigo são presentes para quem viveu ao relento e passou fome

A vida tem maior valor quando vencemos a morte dia a dia

Sentimos melhor a presença

Onde antes houve ausência

O cheio só tem valor onde houve vazio

A percepção da falta mensura a fartura

A iminência da perda evidencia qualquer preciosidade

Faz-nos valorizar e ser gratos ao que temos…

Alda M S Santos

Reservas em mim

RESERVAS EM MIM

Reservo amor…

Para quando a dor calar minha voz

Reservo carinho…

Para alegrar e diminuir sofrimentos: meus e dos outros

Reservo amizade…

Para oferecê-la quando eu mais dela precisar

Reservo fé…

Para quando tudo parecer andar para trás

Reservo sorrisos…

Para outros despertar, para lágrimas secar

Reservo solidariedade…

Para quando não acreditar na bondade da humanidade

Reservo esperança…

Para quando precisar bordar as linhas tortas entre um caminho e outro

Reservo energia…

Como uma árvore frondosa cheia de seiva e vida nos períodos secos

Faço reservas…

Para serem úteis num tempo de carestia

E percebo que quanto mais utilizo:

Amor, carinho, amizade, fé, sorriso, solidariedade, esperança

Mais eles aumentam em mim

Utilizando, multiplico, acumulo

Multiplicando, a reserva acontece naturalmente …

Alda M S Santos

Ciranda da vida

CIRANDA DA VIDA

“Ciranda, cirandinha vamos todos cirandar…”

A vida é uma grande ciranda, nem sempre divertida

Onde todos somos “convidados” a brincar

“Vamos dar a meia volta, volta e meia vamos dar…”

Ora giramos para um lado, ora giramos para o outro

Ora somos vítimas, ora somos réus

Caindo ou derrubando nas voltas e meias

Quase sempre nos “tornando” juízes

“O anel que tu me destes era vidro e se quebrou…”

Vigiando para não quebrar o que temos de frágil

Cuidando para conservar aquilo que temos de mais precioso

“O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou…”

Nas nossas vidas e naquelas vidas que se entrelaçarem às nossas

“Por isso, dona Rosa, entre dentro desta roda…”

O convite é feito a todo momento,

Deem-se as mãos, unam-se

Quem perde a ciranda da vida, essa cantiga de roda

Quando atina, o tempo já se foi…

“Diga um verso bem bonito,

Diga adeus e vá se embora”…

Vamos cirandar?

Alda M S Santos

Como confiar?

COMO CONFIAR?

Como confiar num mundo em que o Merthiolate não arde

Nas delícias da Coca-cola que desentopem sanitários

Nas sandálias Havaianas que arrebentam as tiras tão facilmente

No leite que não vira coalhada depois de três dias fora da geladeira

No Bombril que não tem mais mil e uma utilidades?

Como confiar?

Como confiar numa justiça com tantos pesos e medidas

Na palavra dada que de nada vale se não for documentada

Nos amores que não duram até que a morte os separe

Nas brigas entre rosas e cravos em que ambos não saiam despedaçados

Num “te amo para sempre” apenas se você me amar?

Como confiar?

Como confiar nas compatibilidades de gêneros, ao invés das incompatibilidades de gênios

Que “primeiro as damas” é coisa de feminismo ou machismo

Que ter um quintal sem muro é apenas utopia de Roberto Carlos?

Como confiar?

Nas crianças que dançam “quadradinho” até o chão e não mais “Atiram o pau no gato”

Nos olhares dos pais que não são entendidos como alertas de perigo

Nos adultos isolados da infância e da velhice como seres inatingíveis?

Como confiar?

Como confiar na fé que se professa e não se vive

No ouro que não “compra” terreno no céu

Nos “homens de Deus” que têm doenças mundanas

Na felicidade encontrada apenas nas conquistas profanas?

Como confiar?

Nas amizades que, monetariamente, calculam perdas e ganhos

Na saudade que não dói, no machucado que não sangra

No abraço que não acalma, na família que não se enlaça

No beijinho que não cura qualquer mal?

Como confiar num mundo tão confuso, hipócrita e perdido?

Alda M S Santos

Mil cairão, dez mil cairão, todos cairão

MIL CAIRÃO, DEZ MIL CAIRÃO, TODOS CAIRÃO

Qual a responsabilidade de quem fica de pé?

“Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas não chegará a ti” (Salmos 91)

Ou de quem, aparentemente, ainda não caiu?

Vida de momentos, de tombos, de quedas

De por-se de pé, de levantar

Nem sempre estamos de pé

Nem sempre estamos no chão

Mas na hora em que estivermos de pé

Cabe-nos estender a mão

Ser a alavanca que ajuda a levantar

Se não para ser bom e justo

Para, no mínimo, ter quem nos estenda a mão

Quando for nossa hora de estar caído…

Alda M S Santos

Descartável

DESCARTÁVEL

Usou, sujou, não serve mais

Descarte!

Enguiçou, travou, deu defeito

Descarte!

Enferrujou, quebrou, queimou

Descarte!

Perdeu a utilidade, ficou velho, não agradou

Descarte!

Vai dar trabalho, “perder” tempo, cansar

Descarte! Compre um novo! Substitua!

“Coisa velha ou estragada não compensa arrumar”

É o raciocínio reinante na era descartável

Não importa se são coisas, objetos ou seres inanimados

Pessoas, sentimentos ou relações

Nada se conserta, tudo se descarta, substitui-se

E com tanto descarte por aí

Não há espaço nem para o “velho” e nem para o “novo”

Tudo é jogado fora!

Só que na perspectiva da vida, da alma, não há fora

Tudo está dentro de nós!

As peças estão todas lá: fusíveis, porcas ou arruelas

E todas as ferramentas necessárias para construção do “novo”

A partir do conserto do “defeituoso”:

Chaves de fenda, martelos e alicates

Amor, disposição, fé e coragem …

Não adianta usarmos nada novo, objetos ou pessoas

Iremos danificá-los e torná-los inúteis logo, logo

Se nós mesmos não nos consertarmos, continuarmos velhos e defeituosos…

Alda M S Santos

A bandeira que carrego

A BANDEIRA QUE CARREGO

“Isso é Brasil!” “Paisinho de *m”!

Nós somos Brasil! Entendo assim!

Não importa a cor da bandeira que carrego

Vermelha, azul, roxa, amarela, rosa ou verde

A bandeira que todo cidadão precisa carregar é a da justiça

Da superação, da coragem, do amor

Aquela que devemos hastear todos os dias em nossos corações

Ainda que essa bandeira esteja desbotada

Que mostre-se rasgada pela desesperança

Que tudo pareça utopia, ela balança…

Toda mudança começa com a ideia de um “louco”!

A maior riqueza de qualquer nação é seu povo

Um povo que trabalha, que luta, que acredita num país melhor…

Uma única pessoa é capaz de destruir um continente,

Mas somente se tiver aliados e adeptos de suas ideias

Mas também uma única pessoa é capaz de construir sua nação

Se fizer o mesmo: aliar-se a gente de bem

Meu país não é um país de m* como ouço por aí

Eu também sou meu país

Minha bandeira é verde e amarela

E o que falo dele, falo de mim mesma…

Entremos nos trilhos, Brasil!

Alda M S Santos

Medos

MEDOS

Medo do escuro, medo do desconhecido, medo de água

Medo de perder a luta, medo de perder-se

Medo de sofrer, medo de causar sofrimento

Medo de perder tudo que valha ter medo da perda

Medo de tornar-se indiferente a qualquer medo

Medo de não mais saber o que valorizar

Medos que movem ou que travam a humanidade

Medos que são usados e abusados

Por aqueles que não têm medo

Por aqueles que já não têm nada de valioso a perder

Ou por não saberem o que tem real valor

Medos todos temos,

Mas escolhemos quais nos mover quais nos paralisar…

Alda M S Santos

Enigmas

ENIGMAS

Sou feita de barulhos e de silêncios

Ora sou um, ora sou outro

Ambos necessários em mim…

Há quem goste dos barulhos

Há quem prefira os silêncios

Há quem não compreenda nem um, nem outro

Há quem desperte barulhos intensos

Há quem provoque silêncios profundos, tranquilos ou dolorosos

Há quem não saiba lidar com nenhum dos dois

Há quem consiga fazer a travessia de um para o outro

Sou feita de contrários, de antagonismos

E nessa luta frenética em mim

Vou desvendando meus enigmas

Tornando-me mais eu…

Alda M S Santos

À ESPREITA

À ESPREITA

“Vírus da conjuntivite atinge níveis epidêmicos.”

Outra hora é o da febre amarela, da influenza…

Parece que estão sempre por aí, à espreita.

Aguardando apenas uma fragilidade ou baixa imunidade para atacar e tomar nosso corpo.

Vírus não “sabem” ser diferentes, são parasitas, precisam de um organismo vivo para se reproduzirem.

Mas não atingem qualquer indivíduo, escolhem os mais frágeis, aqueles que não foram imunizados.

A boa notícia é que o mesmo vírus não ataca a mesma pessoa mais de uma vez, elas criam anticorpos.

A notícia que merece alerta é que eles são mutantes, como o Influenza, por isso gripamos tanto.

Como todo “ladrão”, entram por nossas portas deixadas abertas ou janelas mal trancadas, a qualquer hora do dia ou da noite.

Escolhem nosso calcanhar de Aquiles, sem alarde, ficam encubados ganhando força.

Descobrem nossas falhas, carências e necessidades e, como bons vendedores, nos atendem.

Apresentam-se em nossas TVs, invadem computadores de nossos filhos, usam colarinhos brancos, fazem promessas vãs, são nossos “amigos” da atualidade.

Como os vírus, usam nova roupagem, “enganam” nosso organismo, nossa mente, nossa boa fé, abalam nossa confiança.

Levam, além de bens materiais, o que temos de mais precioso: a saúde, o sossego, a confiança, a paz…

Como os vírus, quando conseguem seu objetivo, buscam novas vítimas!

Cabe-nos estar alertas e nos fortalecer

Proteger nossas “casas” e tudo que temos de mais valioso…

Alda M S Santos

Legado

LEGADO

Mesmo com a certeza de que o que sempre apontei como grande decepção estar acontecendo

Preciso acreditar num legado importante a deixar

Num legado em que a confiança e amor não sejam superados pela tecnologia, por máquinas

Num legado em que o temor de tudo, a total desconfiança não se sobressaiam

Onde crianças sejam respeitadas em sua natureza infantil

Que encontrem em sua família a proteção que necessitem

Que idosos se orgulhem do vivido, não temam o futuro, não sejam abandonados

Tampouco se envergonhem do passado e presente perante filhos e amigos

Que adultos possam agir com consciência das marcas boas e ruins que deixam nas trilhas de suas vidas

Da (des)construção física e moral que realizam em si e nos outros

Do legado que estarão deixando por séculos

Não apenas um legado familiar, ou no seu pequeno círculo social,

Mas um legado para toda a humanidade…

Alda M S Santos

Má índole, oportunismo?

MÁ ÍNDOLE, OPORTUNISMO?

Chupim, Engana-tico-tico, Negrinho, os nomes são vários

A má índole é a mesma, se é que podemos atribuir essa “falha” a seres irracionais

O Chupim na época da reprodução, não constrói seu ninho

Aguarda o tico-tico fazer o seu com todo cuidado

E num momento em que ele se ausenta do ninho

Vai lá e bota seu ovo entre os ovos do tico-tico que estão sendo chocados

Tico-tico volta, não nota a diferença, alimenta e cria o Negrinho que nasce primeiro

Em detrimento de seus próprios filhotes que morrem de inanição

Pude ver isso no sítio! Até entre plantas e animais podemos encontrar aproveitadores e parasitas

A má índole e oportunismo, a falha de caráter atribuída aos humanos encontrada nos irracionais

Como muitos humanos, racionais, agem apenas querendo usufruir de um “ninho” pronto

Sem querer se dar ao trabalho de construir ou conquistar suas próprias coisas

Vivem de subtrair dos outros o que quer que seja

E quantos tico-ticos enganados por aí…

Qual deles tem menos “consciência” do que faz: humano ou pássaro?

Alda M S Santos

Plantei cacau na Páscoa!

PLANTEI CACAU NA PÁSCOA!

“Plantar uma árvore, ter um filho, escrever um livro, viver um amor.”

Acho que estou no caminho das tarefas cumpridas…

Brincadeiras à parte, é maravilhoso ver brotar o que a gente plantou

Cultivou, adubou com amor, irrigou com carinho

Deixar morrer, secar, não cuidar, ver ir embora

É sensação de impotência!

Plantei uma árvore de cacau na Páscoa, coincidentemente

Que o amor prevaleça, que a renovação aconteça !

Alda M S Santos

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